Sede de justiça
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2012
Márcio Maio <br> <br> TV Press 
Desde que foi alçado ao horário nobre, João Emanuel Carneiro decidiu fugir do lugar-comum na hora de construir suas heroínas. Em ''A Favorita'', demorou mais de 40 capítulos até apresentar quem era a mocinha e a vilã da trama, protagonizada por Cláudia Raia e Patrícia Pillar na pele das inimigas Donatela e Flora. Agora, em ''Avenida Brasil'', que a Globo estreia nesta segunda, o autor aposta na vingança de uma jovem abandonada no meio do lixo pela madrasta. Mas que, dentro do seu senso de justiça, pode ter um comportamento capaz de deixar algumas malvadas da ficção em segundo plano.
''A Nina tem um parentesco com os personagens que são capazes de fazer coisas condenáveis por causas nobres. E o questionamento da minha novela é justamente até onde os fins justificam os meios'', adianta João, referindo-se à protagonista, vivida por Débora Falabella.
Na trama, Nina nasceu com o nome de Rita e, órfã, foi criada pelo pai Genésio, uma participação especial de Tony Ramos na novela. Mas, depois que a madrasta Carminha, papel de Adriana Esteves, dá um golpe no marido e ele, acidentalmente, morre atropelado, a menina é literalmente jogada no lixo, com apenas 11 anos.
Adotada por um argentino e levada para Mendoza, ela se torna uma refinada chef de cozinha que retorna ao Brasil 13 anos depois. Rebatizada de Nina pela nova família, ela volta disposta a fazer justiça e se vingar de Carminha. Ainda mais sabendo que a vilã mudou de vida depois de se casar com Tufão, famoso jogador de futebol interpretado por Murilo Benício, que dirigia o carro que atropelou Genésio. ''É um personagem cheio de possibilidades e isso é muito bom. Mas o que eu acho muito interessante é que tudo é bem construído, o texto mostra que a Nina tem todos os motivos para buscar um acerto de contas. E é disso que ela corre atrás'', analisa a atriz, que já assumiu o posto de protagonista em ''Sinhá Moça'', em 2006, no horário das 18 horas.
''Avenida Brasil'' é dirigida por Amora Mautner, José Luiz Villamarim, Gustavo Fernandez e Ricardo Waddington, este último assinando a direção de núcleo do projeto. Logo nos primeiros capítulos, assim como muitas outras novelas da emissora, a história conta com cenas gravadas no exterior.
Desta vez, a cidade escolhida foi Mendoza, no Oeste da Argentina, bastante conhecida por sua produção de vinho. Além disso, foram gravadas em Uberlândia, em Minas Gerais, as cenas que retratam uma final de campeonato que consagra Tufão em campo. Isso porque, com o Maracanã, no Rio de Janeiro, em obras para a final da Copa do Mundo de 2014, a produção da novela buscou o estádio que mais se aproximasse dele para as gravações. E escolheu o Estádio Municipal João Havelange, mais conhecido como Parque do Sabiá.
Essa, aliás, é uma das poucas cenas em que Murilo deve aparecer em campo. ''O meu personagem não tem tanto contato com o futebol porque está em fim de carreira'', explica o ator, que perdeu sete quilos depois de encerrar as gravações do seriado policial ''Força Tarefa''.
Para dar início à vingança, Nina decide se aproximar da madrasta sem que ela saiba de seu passado. E começa a trabalhar na casa de Tufão e Carminha, cozinhando para a família. Mas nem só dessa sede de justiça se alimenta a personagem. É nessa casa que ela também reencontra Batata, seu amor de infância, que conheceu no lixão. O garoto foi adotado por Tufão e ganhou o nome de Jorginho, sendo interpretado por Cauã Reymond. Mas o rapaz, agora aspirante na carreira de jogador de futebol, é namorado de Débora, vivida por Nathalia Dill. ''Acho que esse triângulo tem tudo para movimentar a história'', opina Nathália, que já contracenou com Cauã quando ambos fizeram parte do elenco de ''Cordel Encantado''.
Diferente de ''A Favorita'', que apostava em diversas tramas dramáticas, quase tudo que está fora do eixo central ganha um ar cômico em ''Avenida Brasil''. A novela tem seu subúrbio fictício, batizado de Divino, onde funcionam desde a sede de um clube de futebol ao salão de beleza. E onde também acontece o baile ''charme'', no qual diversos personagens se encontram. ''Quis fazer algo bem colorido'', admite João Emanuel. Tanto que o autor escalou um grupo de peso para encabeçar uma das tramas paralelas que mais se destacam na sinopse: o caso do mulherengo Cadinho, de Alexandre Borges, e suas três mulheres.
Empresário de sucesso, ele arruma tempo para se dividir entre elas, já que tem um filho de cada uma. ''Fazer rir é muito gostoso e o humor cria uma identificação imediata com o público. Fiquei feliz por conseguir que um autor me escalasse para um papel assim'', valoriza Carolina Ferraz, que interpreta a socialite falida Alexia. As outras mulheres de Cadinho são vividas por Camila Morgado e Débora Bloch. Mas João Emanuel Carneiro garante que, de uma hora para outra, pode mudar traços da trama, dosando mais ou menos tintas de drama ou humor em cada núcleo. ''Gosto de reinventar a própria história dentro daquele quadro de poucos personagens. Não faço uma produção em rodízio, a história está sempre ali, acontecendo naquele lugar'', garante.


