Secreção, excreção e técnica
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de janeiro de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Falar de técnica sob o ponto de vista da arte, só é possível com o auxílio da filosofia que é capaz de pensar profundamente sobre um assunto que, a princípio, parece pertencer ao domínio da ciência. Aliás, tem sido em nome da técnica que o progresso humano tem sido defendido, justificando a ideologia da globalização que, normalmente, vem acompanhada de exclusão social, padronização, massificação, desrespeito cultural e devastação do meio ambiente. Querendo que pareça desnecessário o debate de idéias, uma vez que a técnica vem justificada com verdades científicas, portanto, parecem inquestionáveis.
Por outro lado, uma situação simples como, por exemplo, um parto, pode nos fornecer a dimensão que se tornou essa questão em nossa cultura ocidental, ocidentalizada, se a compararmos com outras sociedades, uma vez que a primeira coisa que se faz com a parturiente é imobilizá-la, deitando-a e tirando-lhe a força e o movimento necessário para um parto normal, justificando todo um aparato técnico e profissional em nome do progresso da ciência.
Tanto quanto o uso do computador, ou do microondas, ou a construção de edifícios, carros, cidades, o uso de uma varinha para apanhar uma fruta no pé é realizado graças ao uso da técnica. A técnica é, assim, uma extensão do nosso corpo por ela se executa a projeção dos nossos pensamentos, embora o próprio pensamento seja técnica também. Assim, a técnica é um excedente de nós mesmos, uma excreção, tanto quanto as fezes, as urinas, suores, etc. que produzimos, que secretam hormônios produzidos por glândulas e tecidos especiais.
Pode parecer absurdo, mas muito da produção da arte contemporânea incorpora o pensamento como técnica na criação de significados artísticos utilizando materiais residuais produzidos pelo corpo humano. Em uma mancha em um desenho de nu, de Marcel Duchamp, que intrigava os especialistas, foi descoberto recentemente tratar-se de esperma. Piero Manzoni, artista italiano, criou uma série de latinhas com Merda de Artista. Robert Morris, outro artista que se destacou a partir dos anos 70, tem um trabalho com vários de seus excrementos guardados em pequenos recipientes. Uma obra de Andy Warhol, intitulada Piss Oxidation, como o próprio nome diz, foi pintada com a urina do artista oxidando uma placa de metal. E o artista brasileiro Cildo Meirelles tem uma instalação feita com duas salas de vidro exatamente iguais, que exibem cocô e flores, só que em uma o cocô é verdadeiro e as flores são de plástico e na outra o inverso, o cocô é de resina plástica e as flores são verdadeiras. O público é convidado a entrar nas duas, se quiser.
Mais do que querer mostrar algo desagradável, feito para chocar, os artistas estão nos mostrando como nossas percepções e sentidos podem se enganar. Nos fazem ver como o senso comum pode ser falso. E de como a relação da arte com a técnica tem muito mais a ver com o corpo humano do que com essa história de progresso ligada ao desenvolvimento técnico.
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