Sebo com história, no centro de Londrina, cativa leitores há 26 anos
Diferentes gerações de leitores confirmam o interesse pela leitura e o apreço pelos livros impressos no Sebo Capricho, que acaba de ser repaginado
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2026
Diferentes gerações de leitores confirmam o interesse pela leitura e o apreço pelos livros impressos no Sebo Capricho, que acaba de ser repaginado

O número de consumidores de livros cresceu em 2025 no Brasil, de acordo com pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData.
Os dados mostram que 18% da população acima de 18 anos comprou ao menos um livro, impresso ou digital, no ano passado. O número representa um aumento de 2 pontos percentuais – 3 milhões de novos consumidores – em relação a 2024. A pesquisa da Câmara Brasileira do Livro mostra que editoras, livrarias, autores, influenciadores e políticas públicas de incentivo contribuem para o resultado.
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Nesta perspectiva, espaços como livrarias, clubes de leituras e sebos, confirmam a realidade e investem no nicho. É o caso do Sebo Capricho, localizado no Centro Histórico de Londrina, que recentemente fez a ampliação de uma de suas quatro unidades, passando de 200 para 400 metros quadrados.
Há 26 anos no mesmo ponto, a unidade da rua Prefeito Antônio Fernandes Sobrinho, 50, celebra a ampliação, que vai ao encontro da revitalização do Centro Histórico. De acordo com o empresário Marcelo Basques, é um movimento positivo de valorização da região, sua arquitetura e público. "A vizinhança está muito satisfeita e comenta que ficou tão bonito que elevamos o nível do entorno", sorri. O pessoal da casa de massas, da loja de óculos, de presentes, do restaurante e a vizinhança dos prédios faz questão de cumprimentar os funcionários do sebo e a esposa de Marcelo, Letícia, que trabalha na loja e participou de toda a reforma com o desejo de tornar o ambiente ainda mais acolhedor para os leitores.

Em sete meses de reforma e ampliação, o espaço não interrompeu as atividades e Basques admite que ver a loja da forma como está é uma satisfação. "É um sonho realizado", resume. Com um acervo estimado em 1 milhão de obras, somando as duas unidades de Londrina e as duas de Curitiba, a renovação de títulos e leitores é uma realidade neste negócio.

DOS GIBIS AOS LIVROS
Dedicado a este mercado e suas transformações há quase 30 anos, Basques conserva a variedade de gêneros de modo proporcional a seu público. Há leitores que entraram pela primeira vez no sebo na companhia dos pais para folhear gibis e, nos dias atuais, incentivam a prole a circular pelas estantes em busca do prazer contido nas páginas de um impresso.
"Essa parte eu comecei a vivenciar quando comecei a trabalhar os clientes do meu pai. Eles vinham à loja e faziam questão de contar que compravam com meu pai desde a década de 1980. Há pouco, chegavam trazendo os filhos. Hojé já é o contrário, esses filhos estão começando a trazer os outros filhos, e é muito bacana porque continuo aqui", alegra-se.
O leitor Adriano Del Vecchio, 68 anos, faz da leitura uma de suas fontes de cultura e lazer e por isso é comum encontrá-lo explorando prateleiras de livrarias e sebos. Ávido por História, considera-se uma pessoa curiosa e, quando perguntando sobre o que está lendo no momento, tem assunto, pois há sempre dois a três títulos dividindo sua cabeceira.
Atualmente, destrincha as páginas da biografia de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô e encontra tempo para "1989", de George Orwell.
LIVROS GRÁTIS NA CALÇADA
Fascinada por poesia, a leitora Naiara Rodrigues Freire, 24 anos, ficou surpresa com o aviso Livros Grátis, em frente ao Sebo Capricho. Surpresa com a iniciativa, Freire encanta-se pela proposta em mãos. "É uma ideia muito simpática, nos faz parar, sair do automático e ganhar um livro é sempre algo muito proveitoso", pensa. Natural de Bela Vista do Paraíso, a jovem conta que desde os 15 anos vive em Londrina e considera que a leitura tem um papel muito relevante na formação e desenvolvimento das pessoas.

Basques explica que a ideia de colocar um expositor na calçada foi anterior à reforma. "São livros dos quais temos mais de uma unidade e, como precisávamos de espaço durante a reforma, passamos a oferecer todos os gêneros", conta. Com reposição diária e um aceno positivo de quem passa e leva um livro para si ou para presentear, o empresário afirma que a prateleira de doações irá permancer na calçada como forma de incentivar as pessoas a ler e a a manusear obras impressas. "Colocamos obras raras e diariamente muitos clientes passam e não acreditam que podem levar. Entram e questionam se pode levar mesmo, tiram foto, postam, compartilham e marcam a gente", acrecenta.
NO MEIO DOS LIVROS
Em um sebo, livros de segunda mão são procurados o tempo todo e nesta via de mão dupla, leitores também procuraram o sebo para vender e renovar suas bibliotecas. Nesta dinâmica, tudo o que entra passa por avaliação e, posteriormente, uma higienização.
Neste processo, Basques relata que entre páginas de livros, além da narativa em questão, há muitas curiosidades. "Já encontramos cartas de amor, bilhetes, fotografias, cartões-postais e marcadores de páginas muito bonitos, cédulas de dólar, euro ", cita. "Muitas pessoas antigamente tinham o costume de guardar dinheiro em livro. Não é algo tão comum de encotrar atualmente, mas já achamos várias vezes", divide.

Diante da diversidade de objetos, o sebo mantém um baú com esses materiais. Há recortes de jornal que conservam parte da história e marcaram um tempo, assim como anotações pessoais que expõem sentimentos, a compreensão e interpretação da obra, por exemplo.
O nome Sebo Capricho surgiu justamente desta conduta do pai de Marcelo, pois fazia questão que em sua loja de livros usados, tudo estivesse sempre no capricho, limpo e apresentável para quem chegasse. Marcelo conta que o pai, que tinha uma trajetória como agricultor e em busca de uma condição melhor, em 1979 migrou para Londrina, onde comprou uma banca de revistas, localizada na rua Quintino Bocaiúva. "Era a Banca Amiga e com o tempo, passou a incluir livros usados, que passaram a ser a maioria e foi assim que tudo começou com meu pai, Antonio Basques", conta. A partir da pandemia, seu Antonio passou a frequentar menos as unidades e ao lado de seu irmão Luis Antonio, Marcelo dá continuidade ao negócio com autonomia e conservando um modelo que faz das unidades, espaços de convivência, troca de informações e sobretudo um ponto cultural.


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.





