Sebastião Salgado abre sua mostra 'Êxodos' no Sesc Pompéia, amanhã
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domingo, 16 de abril de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 17 (AE) - Guerras destroem não apenas cidades e vidas. A miséria não cria apenas imagens assustadoras e campanhas contra a fome. Ambas provocam o esfacelamento da dignidade humana. Essas são algumas das observações feitas pelo fotógrafo Sebastião Salgado em suas andanças pelo mundo nos últimos sete anos. Durante esse período, ele constatou que a família, célula primordial da civilização, sofreu transformações estruturais radicais. Esse é o mote da exposição "Êxodos", que será aberta amanhã (18) para convidados no Sesc Pompéia, em São Paulo, e, no decorrer do ano, em outras 20 cidades do mundo.
Com curadoria da mulher de Salgado, Lélia Wanick, a mostra faz parte de um projeto grandioso, que terá desdobramentos em workshops, debates, cursos e intervenções teatrais. No mês passado, foram lançados dois luxuosos livros com fotos do trabalho: "Êxodos" e "Retratos das Crianças do Êxodo". Quarta-feira, às 19 horas, será inaugurada outra exposição, "Êxodos - Making Of", dessa vez no Centro de Comunicação e Artes do Senac-SP, apresentando imagens inéditas de Salgado em ação.
O novo projeto do fotógrafo brasileiro mais conhecido no exterior começou em 1993, quando Salgado realizava seu trabalho anterior, "Trabalhadores", lançado em 1996. "Êxodos é uma espécie de segundo capítulo do que fiz em Trabalhadores", conta Salgado. Foram ao todo 47 países visitados pelo fotógrafo. Em cada um, ele notou que uma revolução silenciosa mudava a vida dos habitantes. "Com o fim do trabalho manual e as modificações na produção agrícola, as pessoas começaram a abandonar seus países, principalmente na áfrica e ásia", analisa Salgado.
"Em poucos anos, o número de refugiados passou de 6 milhões para 30 milhões". A partir dessa constatação, ele começou a desenvolver uma pesquisa sobre o assunto. Descobriu que, em 15 anos, 110 milhões de pessoas deixaram seus lares, numa total reorganização da família humana. "Na verdade, 15% fizeram uma fuga para o futuro, enquanto 85% ficaram no passado".
Das milhares de imagens que resultaram da investigação fotográfica de Salgado, 350 serão expostas no Sesc Pompéia. O trabalho será dividido em cinco módulos diferentes. O primeiro, "Migrantes e Refugiados: o Instinto de Sobrevivência", mostra o dia-a-dia de mexicanos, marroquinos, vietnamitas, bósnios, sérvios e outros povos que perambulam buscando uma vida melhor ou sonhando com o retorno para casa. Futuro incerto - Os módulos seguintes são "A Tragédia Africana: um Continente à Deriva", um retrato sombrio de países que vivem assolados por guerras, genocídios, pobreza e fome, que empurram milhões de pessoas para um destino ainda mais incerto. A terceira parte da mostra é "América Latina: Êxodo Rural, Desordem Urbana", no qual Salgado revela a luta pela terra no Brasil, a violência urbana e outras mazelas de um continente em busca de identidade.
O quarto módulo de "Êxodos" trata do remodelamento urbano ocorrido nos últimos anos em cidades da ásia. A última parte da exposição é dedicada às crianças, que Salgado retratou na passagem por campos de refugiados. Segundo o fotógrafo, o trabalho com as crianças começou quando estava em Moçambique, em 1994. "Era um campo de refugiados, onde há um estado depressivo muito grande", conta Salgado. "Eu então propus fazer um retrato de cada criança; e, nesse momento, deixaram de ser parte de um bando para ganhar personalidade". Ele diz que, no trabalho de edição, sua mulher percebeu que as fotos eram tão fortes quanto as outras. Decidiram fazer um trabalho à parte. Todo esse processo de produção e método de trabalho de Salgado e sua equipe poderão ser vistos na exposição "Êxodos - Making of", no Senac.
"Êxodos" é mais um passo que Salgado dá em seu trabalho de discussão da relação entre os povos. Apesar de ter recebido críticas da intelligentsia, que o acusou de glamourizar a miséria humana, Salgado afirma que pretende, na verdade, promover uma cruzada contra a opressão num mundo em que poucos usufruem a tal globalização. Serviço - Sebastião Salgado. De terça a sábado, das 10 às 21 horas. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Até 4/6.


