'Sebastião' ganha o palco
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de maio de 2002
Francelino França<br>Reportagem Local 
A estética do aclamado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado inspirou a Companhia Basirah a criar o espetáculo Sebastião, um dos mais aguardados da programação da Mostra Nacional do Festival Internacional de Londrina (Filo). As imagens dos livros Trabalhadores, Terras e Êxodo ganharam tridimensionalidade a partir da tradução corporal realizada pela companhia brasiliense. Nesse mergulho ao cerne das obras marcantes, cinco intérpretes apresentam movimentos e expressões que retratam a tragédia da miséria, do abandono, da fome e da dor.
O trabalho foi lavrado pela ótica dos coreógrafos Márcia Duarte, Gisele Rodrigues e o norte-americano Howard Sonenklar que imprimiram em três coreografias leituras diferenciadas sobre a poesia visual do fotógrafo. Dividido em três partes não estanques, a primeira com assinatura de Sonenklar, apresenta dois intérpretes de olhos vendados o avesso dos olhares magnetizantes presente nas fotos de Salgado que se movimentam na terra molhada, como vermes à procura da sobrevivência.
Na sequência, Márcia Duarte mostra cenas mais interpretativas que coreografadas, cavando no espírito e na fala dos indivíduos deserdados a mistura de elementos de teatro e dança. Na partitura definida pela coreógrafa, estão presentes a luta pela sobrevivência, a degeneração dos meios urbanos, a fé, a luta e a morte. Não é um espetáculo político. não se trata de uma tradução da obra de Salgado, e sim uma interpretação, define Márcia Duarte, em Londrina.
No terceiro quadro, dirigido por Giselle Rodrigues, reside o momento mais expressionista do espetáculo, quando os personagens flagelados presentes no livro Trabalhadores buscam por uma gota dágua. A unidade de Sebastião se concretiza, primeiramente, pela fonte no qual os encenadores beberam, a obra contundente de Sebastião Salgado. A trilha sonora assinada por Alex Queiroz e André Togni contribui para amalgamar as linguagens do trio de coreógrafos. Mas o elemento que define os contornos da denúncia social é a terra, que a cenografia usa como elemento principal. Foram utilizados oito caminhões de terra no Espaço Alternativo, em Londrina.
No ano passado, durante a exposição fotográfica Êxodo, o criador conheceu a criatura. Sebastião Salgado assistiu à montagem de Sebastião. Mineiro, cauteloso, ele se limitou a dizer ao grupo que não tinha uma relação mais estreita com as artes cênicas que pudesse emitir uma opinião crítica. Uma atitude que revela uma certa timidez diante da dimensão que sua obra fotográfica pôde suscitar.
A Companhia Basirah se diferencia no cenário da dança em Brasília pela produtividade constante. Cada trabalho tem a assinatura de um coreógrafo diferente e o resultado também se mostra múltiplo, sem uma estética definida.
Serviço
Sebastião, com a Companhia Basirah, hoje e amanhã, às 21 horas, no Espaço Alternativo. Criação de Giselle Rodrigues, Howard Sonenklar e Márcia Duarte. Elenco: Edi Oliveira, Lívia Benet, Lívia frazão, Márcia Lusalva e Rachel Cardoso. Cenografia de Hugo Rodas. Trilha sonora de Alex Queiroz e André Togni.


