Sean Connery faz a festa em Cannes
Fora da competição, o dia anteontem foi todo de Sean Connery. O ator veio a Cannes divulgar seu último trabalho, Entrapment - no Brasil batizado como A Armadilha, com estréia prevista para o final deste mês. O filme passou hors-concours e lotou a grande sala Claude Debussy. Logo depois, o espaço destinado às coletivas e localizado no terceiro andar do Palais des Festivals foi pequeno para tantos jornalistas. Menos para o filme do que para a entrevista com Bond, James Bond em pessoa.
Beirando os 70, mas mantendo a leonina imponência que o tornou um dos raros atores de toda a história do cinema com poderosa e intimidadora presença cênica, este escocês tem em estado puro e espontâneo aquilo que anos de artificial elaboração e estudada manipulação não conseguiram dar a muitos pretendentes: carisma. E charme evidentemente, a arma mortífera que magnetizou belas mulheres e liquidou os grandes vilões na série 007.
Não consigo dormir à noite..., foi a observação cínica, bem-humorada, elegante e espirituosa do ator, respondendo à obvia e onipresente pergunta sobre como se sentia tendo interpretado James Bond tantas vezes, e tendo seu nome ligado a um dos mitos criados pela ficção cinematográfica no século. Agora definitivamente dublê de ator e produtor (Entrapment foi produzido pela Fountainbridge, companhia fundada por Connery em 1992), ele fala com entusiasmo da alternativa que lhe confere outras responsabilidades, por trás das câmeras. Aborda com afeição os novos rumos do cinema na Escócia, onde a reativação dos estúdios conta com seu apoio decisivo. Mas estamos à espera do dinheiro americano, observa com a sobrancelha esquerda levantada, uma de suas marcas registradas. Mas não é só isso que interessa à imprensa, e nem só de críticos e críticas sobrevive um festival, pelo contrário. É preciso criar mundanidades, alimentar vaidades, supervalorizar notícias a partir do vaivém das personalidades.
No caso de Connery, o enfoque mais ligeiro e superficial quer saber dele, por exemplo, como foi beijar Catherine Zeta-Jones, sua parceira em Entrapment. A resposta, de um cavalheiro em presença da dama, e de um experiente homem público diante da pergunta maliciosa, é de aprovação, claro, com méritos, etc, etc. Ela interfere e lhe dá nota onze, como especialista na arte de beijar. Com ar de galante dubiedade e carregado de um cinismo saudável, ele responde que a recompensará mais tarde (I will pay you latter...) E com elegante resignação, é obrigado a voltar ao assunto Bond girls, como eram, quem beijava melhor, de qual se lembra especialmente, etc, etc. Um jornalista conterrâneo aborda a política, e o ator fala com paixão - e neste momento é possível sentir que o carisma é definitivamente inato e que a câmera nada tem a ver com isso - sobre o nacionalismo escocês, discorre em detalhes sobre a situação recente dos partidos políticos no país.
Diante da indagação sobre uma possível, ainda que hipotética, separação da Escócia do Reino Unido, conclui: Não vejo como partir a ilha em pedaços.
Para encerrar, uma possível troca de posições, vale dizer, além dos projetos como produtor, a estréia como diretor. A resposta não é muito entusiasmada. Ele diz que ainda não encontrou um argumento que o motivasse o suficiente, mas está a espera, à procura de uma comédia. Depois de quase uma hora, a entrevista chega ao fim. O assédio por autógrafos se transforma num corpo a corpo. Repórteres, fotógrafos, cinegrafistas acorrem à mesa. Mulheres não são maioria. E no meio da multidão que se espreme, é possível reconhecer em desalinho até alguns críticos compostos e circunspectos, representantes de uma geração cinematograficamente criada a partir de signos muito precisos dos anos 60. Entre eles, Sean Connery, aliás James Bond.France PresseSean Connery e os fotógrafos em Cannes: ele faz pose imitando o cartaz do festival deste anoCarlos Eduardo Lourenço Jorge
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