''Se não me falha a memória, morrerei.''
Sou um objeto querido por Deus. E isso me faz nascerem flores no peito. Ele me criou igual ao que escrevi agora: sou um objeto querido por Deus e ele gostou de me ter criado como eu gostei de ter criado a frase. E quanto mais espírito tiver o objeto humano mais Deus se satisfaz.
Lírio brancos encostados à nudez do peito. Lírios que eu ofereço e ao que está doendo em você. Pois nós somos seres carentes. Mesmo porque estas coisas - se não foram dadas - fenecem. Por exemplo - junto ao calor de meu corpo as pétalas dos lírios se crestariam. Chamo a brisa leve para minha morte futura. Terei de morrer senão minhas pétalas se crestariam. É por isso que me dou à morte todos os dias. Morro e renasço.
Inclusive eu já morri a morte dos outros. Mas agora morro de embriaguez de vida. E bendigo o calor do corpo vivo que murcha lírios brancos.
O querer, não mais movido pela esperança, aquieta-se e nada anseia.
Meu futuro é a noite escura e eterna. Mas vibrando em elétrons, prótons, nêutrons, mésons - e para mais não sei, porém, que é no perdão que eu me acho.
Eu serei a impalpável substância que nem lembrança de ano anterior substância tem.
(...)
No que precede o acontecimento - é lá que eu vivo. Espero viver sempre às vésperas. E não no dia.
(Fragmento de manuscrito de Clarice Lispector escrito em dezembro de 1997, poucos dias antes de morrer. Publicado no livro Clarice - Uma Vida Que se Conta de Nádia Battella Gotlib, Editora Ática, 1995.)





