Scorsese e as ruas de Nova York
Scorsese e as ruas de Nova York
Que ninguém duvide: é de longe o cineasta mais comprometido (leia-se engajado, por precisão terminológica) com o processo cinematográfico, em todas as instâncias. Ninguém como ele tem se ocupado tão exemplarmente da criação, circulação, divulgação e preservação do filme acima de tudo como obra artística e bem cultural da humanidade. Fácil perceber esta contribuição inestimável. Complicado é tentar adivinhar como, no exíguo espaço de 365 dias, Martin Scorsese encontra tempo para dar aulas, presidir júris, viajar pelo mundo garimpando recursos para a recuperação de tesouros ameaçados, apresentar programas televisivos e vídeos didáticos, escrever roteiros e ainda produzir e dirigir. No inverno de 98 sobrou um tempinho e ele realizou Vivendo no Limite, lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação na página 5).
Apesar de alguns pontos em comum, boa parte da crítica americana fez questão de deixar claro que Bringing Out the Dead não é Taxi Driver numa ambulância. Bem verdade que se trata da mesma Nova York noturna, devoradora, emblemática do filme que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes-77. E que o roteirista é o mesmo Paul Schrader.. E que o personagem de 22 anos atrás é o mesmo ser alienado, antes Robert De Niro, agora Nicholas Cage. O que difere um de outro, então? A redenção, segundo a ótica católico-dilacerante da dupla Scorsese-Schrader. Em resumo, a salvação da alma, tema recorrente na filmografia estranhamente moralista do diretor.
Cage é Frank Pierce, um paramédico a bordo de uma ambulância. Mergulhado em culpa pela morte de uma garota com a qual tem terríveis visões, angustiado, estressado, ele lida com toda sorte de outsiders: prostitutas, drogados, sem-teto e toda uma coleção de tipos humanos perdidos na noite de Times Square. O filme embarca na ambulância com Frank durante duas noites rumo ao inferno em que se transforma o cotidiano da megalópole. Algumas doses de humor, negro e refrescante, porque Scorsese sabe melhor que ninguém como ter compaixão e aliviar as tensões de seus personagens e do espectador.
Ainda no elenco desta perturbadora jornada, John Goodman, Patricia Arquette, Ving Rhames e Mary Beth Hurt.(CELJ)





