São Paulo, 02 (AE) - Quando saiu nos Estados Unidos, "Vivendo no Limite" foi logo comparado a "Táxi Driver". Compreensível. Como no clássico estrelado por Robert De Niro, também neste há um personagem à beira do abismo. Há também a mesma Nova York espectral, lisérgica, a cidade sendo mais personagem que palco da história. E há Paul Schrader, roteirista do filme de 1976, que assina o script deste, adaptado do livro de Joe Connelly. São, no entanto, e apesar de tantos pontos de encontro, dois filmes radicalmente diferentes quanto à concepção.
Se no primeiro o veterano do Vietnã Travis Bickle buscava a purificação pelo sangue, no segundo o paramédico Frank Pierce (Nicolas Cage) procura redimir-se salvando vidas. Claro, há um traço de união entre os dois: Martin Scorsese impondo sua marca de diretor, de cineasta impregnado de um catolicismo exasperado, perplexo com a dor do mundo e a fragilidade do ser humano. A história é tirada do ótimo livro de Connelly. Mas, como às vezes acontece no cinema, a imagem produz mais impacto que o texto.
Nicolas Cage vive o paramédico Frank Pierce, que está há cinco anos nessa que é uma das profissões mais estressantes que existem. Ele sai, sempre em dupla, em uma ambulância, atendendo aos chamados de urgência: paradas cardíacas, overdoses, brigas de rua, loucos que perambulam, sucidas, traficantes baleados, prostitutas cortadas. O inferno, enfim. Duas, três, dez ocorrências desse teor por noite. Pierce não dorme direito, quase não come, sua existência é uma alucinação ou um sonho mau.
Vive obcecado pela imagem de Rose, garota de 18 anos que ele não conseguiu salvar. Tentou enfiar um tubo de oxigênio na garganta dela por três vezes e nas três fracassou. O coração parou e a moça se foi. Ficou na memória culpada de Pierce, em seu passivo existencial. Há outro caso particular, que acompanha a trama inteira: uma parada cardíaca. Um homem já idoso, Burke, teve um enfarte. É dado como morto, mas os paramédicos o reanimam. Ele é levado para uma UTI de pesadelo e sobrevive precariamente.
Pierce conhece a filha de Burke, Mary (Patricia Arquette), uma ex-drogada que não falava com o pai havia três anos. Agora quer que ele saia do coma para poder conversar com ele, por uma vez e talvez pela última.
É nesse quadro tenebroso que se desenvolve a história de "Vivendo no Limite". Enquanto acompanha o coma de Burke e o desespero de Mary, Pierce sai pelas ruas de Nova York para encarar outros casos. Não é exatamente a Big Apple do cartão-postal. A ambulância que pilota anda pelas ruas mais pobres da cidade. Pierce sobe em apartamentos sórdidos, povoados de seres humanos assustados. Convive com a doença, a dor, a droga. Ele mesmo vai sendo tragado pelo mal do mundo.
Seus parceiros (um dirige, outro cura, e se alternam) são mostrados como seres limítrofes da normalidade. Larry (John Goodman) é um alucinado. Marcus (Ving Rhames), um carola, que encontrou na fé sua forma de evasão. Walls (Tom Sizemore) é abertamente um psicopata sádico. A certa altura o espectador se pergunta se quem exerce semelhante métier pode mesmo ser normal. Mas, claro, o filme não é exatamente sobre isso, ou o é apenas secundariamente.
Na verdade, "Vivendo no Limite" é um pretexto para Scorsese refletir sobre a desordem do mundo. Há nele essa investigação profunda, filosófica, dramática, sobre a origem do mal e do sofrimento. É a pergunta católica. Uma busca pelo sentido da existência, que se torna mais premente, às vezes mais patética, justamente porque feita em meio ao inferno na Terra. Trata-se de um filme que pensa e sente - e exige a mesma atitude por parte de quem vai assisti-lo.
Como é bom cinema, pensa e sente mais por imagens que pelo discurso. Quem vai assisti-lo sai do cinema com duas ou três sequências que guardará para sempre em sua memória de cinéfilo. Há um diálogo notável entre Frank e Mary na sala de espera do pronto-socorro. Scorsese subverte o tradicional plano-contra-plano e filma a moça em ângulos diferentes. É um momento de comoção, e essa técnica produz um efeito extraordinário.
Há momentos de corrida alucinada da ambulância pela cidade, ao som de rock pauleira, que são de antologia. E na cena mais impressionante, o traficante Cy (Cliff Curtis, ótimo) aparece com a barriga espetada numa grade e mesmo assim deslumbrado com a Nova York de sonho que se descortina da sua varanda. Mas repare na cena final, que não pode ser descrita para não estragar o prazer do espectador. Uma das imagens mais belas jamais vistas numa tela, testemunha da religiosidade e da compaixão humana do diretor.
Compaixão não é apenas uma virtude do espírito - é uma atitude estética, sem a qual a arte, ou a vida, não valem a pena. Basta assistir a esse lindo e quase insuportável filme de Scorsese sobre a dor para constatá-lo.

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