O escritor gaúcho Moacyr Scliar é dessas pessoas antenadas com o tempo em que está vivendo. Entende o desconhecimento do filho adolescente sobre os escritores que foram determinantes na juventude dos anos 60, vive muito bem com a era da Internet e faz previsões otimistas sobre o futuro. Sobre o livro eletrônico, com as páginas abertas na tela do computador, declara:.‘‘É uma nova realidade e terá suas consequências: vai crescer o número de leitores.’’
Scliar veio a Curitiba na segunda-feira participar de um encontro na Expolivro 2000 – Feira Sul Brasileira do Livro, e conversou com a Folha Dois. ‘‘Acho que a Internet tem o mérito de trazer o jovem à escrita. Ele está escrevendo e lendo mais’’, aposta o autor de ‘‘A Mulher que Escreveu a Bíblia’’, romance que levou o troféu Jabuti do ano passado, e está na quinta edição.
O olhar futurista do escritor detecta mudanças no formato dos livros. Os romances necessariamente serão mais curtos, e o tamanho ideal dos volumes estará entre 70 e 100 páginas. Através da rede de computadores os autores abrirão espaço para interação com os leitores.
Estes poderão sugerir modificações e novos caminhos aos personagens das tramas. Uma experiência dessas foi levada por Scliar junto a 7 mil estudantes que o ajudaram a escrever ‘‘o meio de uma história’’. ‘‘Sou um otimista da palavra escrita’’, diz.
Quanto aos detratores que olham com receio a invasão determinante da tecnologia na área literária, descarta os argumentos sombrios: ‘‘Tudo que é novo acham que não é arte’’. Exemplos existem às dezenas, como os adventos do cinema, do rádio, da televisão. Ou mesmo do vídeo. Toda novidade é saudada como a futura causa do enfraquecimento de determinada arte.
Ainda nessa projeção aos dias que virão, Moacyr Scliar opina que os romances sombrios e obscuros irão pelo ralo. O lugar será ocupado por enredos mais claros, de fácil entendimento, sem as tortuosidades interiores do autor. Chega de dramas existenciais. ‘‘Vamos voltar à narrativa linear, direta. A preocupação do escritor será em emocionar o leitor’’, analisa.
Aos 32 anos de carreira literária – sem contar os tempos anteriores que serviram como ensaios para o profissionalismo – o escritor se coloca nesse contexto. Ele também já foi de narrativas ‘‘com finais desconcertantes’’, mas os tempos eram assim: por vezes nem mesmo os autores entendiam suas linhas.

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