Saura volta com um tango triste
José Geraldo Couto
Agência Folha
Tango é um filme ostensivamente bonito e vazio. Como não tinha nada de novo a dizer, o espanhol Carlos Saura requentou a fórmula de seu Carmen, dando-lhe uma nova e vistosa roupagem. Trocou Madri por Buenos Aires e o flamenco pelo tango. Chamou Vittorio Storaro para fazer uma fotografia deslumbrante e Lalo Schifrin para compor um tango moderno à Piazzola. Pronto.
Se em Carmen o enredo do balé de Antonio Gades se mesclava com a vida dos bailarinos, aqui se repete o mesmo jogo de espelhos entre a produção de um filme sobre o tango e o drama que se desenrola nos bastidores. O cineasta Mario Suárez (Miguel Angel Solá) apaixona-se pela bailarina Elena Flores (Mia Maestro), estrela de seu filme, sob os olhos ameaçadores do amante da moça, o gângster Angelo Larroca (Juan Luís Gallardo), financiador da obra. A história parece ser mero pretexto para Saura. O que lhe interessa é exibir uma sucessão de belos quadros dançantes, como num show de tango para turistas.
A partir de um certo momento, como em Carmen, fica difícil distinguir o que se passa dentro do espetáculo do que se passa na vida. Dos desencontros amorosos aos confrontos políticos, tudo é estilizado ao ponto de perder substância e tornar-se pura estética. Muitos espectadores saem extasiados. É uma obra de arte.





