SAÚDE ALTERNATIVA
Nelson Sato
De Londrina
Hipócrates, o pai da medicina, escreveu que é mais importante conhecer a pessoa que tem a doença do que a doença que a pessoa tem. A lição de casa, porém, parece ter sido esquecida durante um bocado de tempo pelos profissionais da saúde. Só recentemente, com a popularização das terapias alternativas, é que as condutas até há pouco rejeitadas passaram a orientar as práticas médicas oficiais.
Hoje é cada vez mais comum que adeptos da clínica moderna cruzem a fronteira para indicar tratamentos não convencionais a seus pacientes. Segundo o pesquisador norte-americano Isadore Rosenfeld, ainda há um grupo intransigente, mas os novos interesses e flexibilidade demonstrados pela medicina organizada (especialmente por sua autoridade quase absoluta no que diz respeito ao que é bom ou mau no tratamento médico) são notáveis. Os médicos ainda exigem provas, como convém, mas pelo menos não estão mais tão restritos aos próprios campos de atividades.
A observação faz parte do livro O Guia da Medicina Alternativa, que está chegando às prateleiras pela editora Bertrand Brasil. Rosenfeld, o autor, é um eminente professor de clínica médica e médico no New York Hospital e no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. Nas 340 páginas do volume, ele reuniu um vasto material de pesquisa descrevendo os métodos alternativos e as evidências científicas que comprovariam ou não seus propósitos.
Com clareza e didatismo, ele analisa o desempenho de inúmeras terapias como acupuntura, homeopatia, uso de ervas medicinais, hidroterapia, quiroprática, reflexologia, enzimas, quelação, trabalho corporal e várias outras que você já deve ter visto arrebanhando seguidores por aí. Recheando a avaliação com histórias e relatos, o autor saúda tratamentos benéficos e reprova aqueles que julga fraudulentos.
Ao analisar a acupuntura aplicada a usuários de drogas, enfatiza algumas experiências promissoras acrescentando que até um juiz do tribunal de entorpecentes de Miami recorreu às agulhas depois de se impressionar com os resultados. Ele decidiu experimentá-la, conta Rosenfeld, para acabar com seu velho hábito (25 anos) de fumar. Após 10 dias de tratamento, ele parou para sempre!
A aromaterapia, por sua vez, teria se revelado bastante eficaz na assistência de pessoas com problemas de sono. Citando um relatório publicado numa revista científica, ele lembra que pacientes idosos que necessitavam de doses elevadas de soníferos dormiram como bebês quando seus quartos à noite foram impregnados de aroma de lavanda.
Já ao abordar a iridiologia, prática que consiste em diagnosticar e prever doenças pelo exame da íris (a parte colorida) do olho, sua conclusão é oposta e fulminante: A iridiologia parece não ter nenhuma base científica, e nenhuma de suas descobertas ou afirmações pôde ser comprovada. Rosenfeld escreve um capítulo específico para denunciar, com bom-humor, as diversas iscas usadas pelos terapeutas impostores para ludibriar os incautos.
Tratamentos de rejuvenescimento da pele, promessas rápidas de emagrecimento ou produtos que prometem aumentar a potência sexual são algumas das armadilhas elencadas. Mas os charlatães, diz ele, habitam tanto a seara alternativa quanto os bastiões clínicos organizados: Um diploma de medicina não é garantia de que as recomendações do terapeuta sejam eficazes, seguras ou oferecidas de boa-fé. Existe, aliás, uma porção de médicos de reputação que não tem escrúpulos em explorar pacientes desesperados com tratamentos caros que eles sabem não valerem a pena só para levantar uma grana.
Esse tipo de afirmação, convém notar, costuma ser sonegada pelos médicos alopatas quando eles saem a campo para combater os terapeutas alternativos. Uns e outros, aliás, sucumbem às acusações mútuas. Não há meio-termo nem muitas mentes abertas, e os insultos são fartos. Escrevi este livro para mostrar que há um meio-termo pondera o autor. Defendendo a aproximação entre as duas correntes, ele vê vários sinais para otimismo.
Diz que até mesmo os Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health), representantes máximos do sistema médico norte-americano, vêm mostrando interesse por algumas terapias não ortodoxas. Observa ainda que diversas companhias de seguro de saúde membros de uma indústria que não é conhecida especificamente por sua compaixão e generosidade também estão reembolsando seus segurados participantes de planos de bem-estar que incluem tratamentos holísticos.
Até mesmo a Academia, salienta ele, tornou-se mais flexível em relação à medicina não convencional. Usa como exemplo a faculdade de medicina da Universidade de Columbia, onde os profissionais de saúde podem se matricular em cursos e seminários do gênero. O livro relata essas mudanças e, principalmente, fala abertamente sobre o que funciona e o que não funciona no universo das terapias alternativas. A polêmica está aberta.Livro analisa o desempenho de terapias não convencionais como acupuntura, ervas medicinais, homeopatia e trabalho corporal
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