Há exatamente um ano morria Gregory Corso, o poeta fora-de-série, o beat fora-da-lei. Tinha 70 anos e treze livros publicados. Não teve a fama de alguns de seus companheiros de geração, mas exerceu fascínio por sempre manter-se fiel às suas convicções marginais, recusando toda e qualquer crença ideológica, política ou religiosa.
Nômade, rejeitava residência fixa e bens materiais. Herdeiro da tradição romântica, proclamava que a arte e a vida eram inseparáveis. ‘‘Não posso escrever sobre poesia sem escrever sobre o poeta. Na verdade eu, como poeta, sou a poesia que escrevo. É o poeta hoje, e não o poema, que deve se transformar em uma obra de arte. O tempo exige que o poeta – isto é, o homem – seja tão autêntico quanto um poema’’ – dizia.
Corso tinha a ficha suja quando se juntou aos beats. Aos 20 anos de idade, tinha mais tempo de cadeia do que de rua, onde passou a perambular como poeta errante até seus últimos dias. Nascido no Village, em Nova York, ele atravessou a infância trocando de orfanatos e reformatórios depois de perder a mãe e ser abandonado pelo pai.
Descobriu a poesia no xadrez, lendo vorazmente os livros repassados por colegas de cela, aos quais dedicou seu primeiro volume. Logo após ser solto, conheceu Allen Ginsberg e Jack Kerouac integrando-se à célebre turma que colocaria uma geração inteira nas estradas da América. Na época, Corso percorreu não só o seu país de ponta a ponta como viajou pela Europa e África.
Em Paris, onde passou uma longa temporada, entupiu-se de drogas dividindo um quarto de hotel com Ginsberg e o amante deste, Peter Orlowsky. Em 1958, Kerouac escreveu: ‘‘Considero Gregory Corso e Allen Ginsberg os dois melhores poetas da América. Corso é um garoto durão nascido no Lower East Side que cresceu como um anjo acima dos telhados e canta canções italianas tão lindas quanto Caruso ou Sinatra, só que com palavras de sua alma renascentista’’.
Beat por excelência, Corso foi um desordeiro exemplar. No livro ‘‘Alma Beat’’, lançado no Brasil em 1984, o escritor Antonio Bivar narra um episódio revelador sobre o temperamento do poeta:
‘‘Conta-se que, em 1979, precisando de grana para levar a mulher e o filho à Nova York, ele saiu do lendário Vesuvio Bar, em North Beach, foi à porta ao lado – a livraria e editora City Lights Books – pegou um tijolo e mandou na vitrine, atingindo diretamente a caixa registradora, de onde pegou todo o dinheiro. Umas dez pessoas testemunharam a cena, mas, antes que alguém fizesse qualquer coisa, os corsos já estavam no avião rumo a Nova York’’.
O dono da livraria era seu velho amigo Lawrence Ferlinghetti, responsável inclusive pela publicação de boa parte de sua obra. A exemplo dos demais parceiros de farras e de metiê, Corso também foi influenciado pelo jazz chegando a dedicar poemas a Miles Davis e Charlie ‘‘Bird’’ Parker. Embora omitido pelas antologias de poesia contemporânea americana, é provável que mantenha uma legião de leitores ao redor do mundo.
‘‘Abra esse livro como se fosse uma caixa de brinquedos malucos’’, convidava Allen Ginsberg no prefácio de uma coletânea de escritos do amigo. A coletânea era ‘‘Gasolina & Lady Vestal – Poesia Urbana’’, seu único título publicado no Brasil e que deverá retornar às prateleiras este ano pela L&PM. A primeira edição é de 1985. Hoje é dia de soprar o pó da capa e mergulhar outra vez em suas páginas.




Três poemas de Gregory Corso

O nova-iorquino
Ele está em Cambridge
E agora bate à minha porta
Ele é o cara de Nova York;
tem olhos enormes de neon
seu olhar despeja
jazz pelo meu chão
Mas ele estava mesmo lá?
Podia ser um rádio,
ou um órgão de fundo
ali alucinado.
Podia ser eu mesmo
me visitando em pleno jazz,
com receio de bater.




De visita ao lugar de nascimento
De pé na luz fraca da rua escura
olho para minha janela no alto, foi lá que nasci.
As luzes estão acesas; outras pessoas se movimentam ali.
Vestido com capa de chuva, cigarro na boca,
chapéu caído nos olhos, a mão na arma.
Atravesso a rua e entro no prédio.
As latas de lixo não pararam de cheirar mal.
Subo o primeiro lance de escadas; Lóbulos-Sujos
me ameaça com sua faca...
Eu lhe despejo uma torrente de relógios esquecidos.




Nas mãos está minha cidade
Nas mãos está minha cidade, minha lira
E em minhas mãos está a pira
E minha mãe ouve Corelli
enquanto minhas mãos estão em chamas

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