Saudades da velha China
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de janeiro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
O chinês Chen Kaige não passou na prova da ocidentalização. Perdeu as boas maneiras que o levaram à Palma de Ouro em Cannes-93 com ''Adeus Minha Concubina'' ao assinar sua estréia hollywoodiana, um inverossímil, artificioso e equivocado drama de suspense maliciosamente batizado entre nós como ''Mata-me de Prazer''. O filme, em lançamento em Londrina (veja a programação de cinema nesta página), chega ao Brasil com quase um ano de atraso por conta de sua triste sina como produto frustrado já na origem: embora pronto desde setembro de 2001, nos Estados Unidos ainda não foi lançado no circuito cinematográfico e é provável que vá direto para a tevê a cabo.
Começa pelo argumento, vulgarizado à exaustão na divisão do ''thriller'' erótico. Alice (Heather Graham) é uma jovem americana que vai morar em Londres. Há o trabalho como pesquisadora e o noivo, com quem divide uma vida tranquila, cômoda, previsível. Então surge o estranho fascinante. É Adam (Joseph Fiennes), um alpinista de renome. De um primeiro contato fugaz, os dois acabam arrastados por uma paixão fulminante. Incapaz de readquirir o autocontrole, Alice decide abandonar a normalidade e viver uma aventura passional quase toda às cegas. Mas o passado do novo companheiro esconde algumas facetas terríveis. E a mocinha descobre na lua-de-mel que pode se dar muito mal.
O sólido Chen Kaige de ''Adeus Minha Concubina'' e ''O Imperador e o Assassino'' regride aqui à condição de tosco principiante, naufragando de princípio ao fim em seus próprios e grande erros, além da escritura equivocada da roteirista Kara Lindstrom. Em ''Killing Me Softly'', incoerência e ausência de credibilidade se encontram para compartilhar uma paixão sem sentido, carregada de diálogos repetitivos, como se fossem necessárias muitas palavras para forçar o espectador a compreender o mecanismo daquilo que se vê na tela. E como se fosse também necessário o convencimento auditivo, há a imposição de uma cena de sexo que ladra muito, mas morde pouco. Isto e muito mais bela fotografia, vestuário chique, violinos melódicos e afinados são artifícios que tentam disfarçar a fragilidade do conjunto. ''Mata-me de Prazer'' acaba sendo formalmente redundante justamente porque Kaige não tem as rédeas da tensão. Ele é incapaz de definir consistentemente a sombra da dúvida e da suspeita ao redor das quais deveria se armar solidamente a história. E isso é fatal para um gênero que, apesar de sempre aparentemente exaurido, tem sempre um trunfo na manga que pode surpreender o mais calejado espectador.
Melhor que o chinês deixe esse material para diretores rotineiros, sem intenções artísticas ou problemas de moral estética, e retorne às raízes que deram tão bons resultados.


