Mesmo em tempos de fácil acesso à música, não será simples relembrar João Gilberto, falecido no sábado (6), aos 88 anos, ouvindo seus venerados três primeiros discos. Os álbuns são "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961). O mesmo vale para o compacto "João Gilberto Cantando as Músicas do Filme 'Orfeu do Carnaval'" (1959). Eles formam a "essência da bossa nova", como definiu o jornalista Claudio Leal. No entanto, não é possível comprá-los em lojas de Cds nem ouvi-los em streaming.

Para apreciar em suas versões originais clássicos como "Samba de uma Nota Só", "Corcovado", "O Barquinho", "Desafinado", "Morena Boca de Ouro" e "Doralice", as opções são os LPs remanescentes e vídeos de fãs no YouTube e em redes sociais. Entender o porquê requer certa arqueologia. Os trabalhos foram lançados pela gravadora Odeon, subsidiária da EMI extinta nos anos 1990 e cujo catálogo é da Universal desde 2012, quando as empresas se fundiram.

Em 1963, João Gilberto avisou a Odeon que não tinha intenção de renovar o contrato. Mas a gravadora continuou a lançar edições de seus discos - e a pagar ao artista o quanto achava que devia. Em 1988, uma gota d'água fez transbordar a indignação do músico: sem seu aval, a EMI reuniu aqueles três LPs e o compacto no box "João Gilberto - O Mito", com 38 canções em um CD e três Lps. Pior: as músicas foram remixadas, alterando o equilíbrio original entre instrumentos e vocais, vozes ganharam ecos e as canções "O Nosso Amor" e "A Felicidade" foram cortadas e unidas em uma só faixa. João processou a empresa, suspendeu a comercialização e, no embalo, questionou os royalties pagos desde 1964.

Em um laudo anexado ao processo, o arranjador e arquiteto Paulo Jobim, filho de Tom, atestou as deturpações. "Houve mudanças de equalização que alteraram a voz e o violão e puxaram (para frente) a bateria e as cordas. E algumas músicas foram condensadas num pot-pourri", disse ao jornal Folha de S.Paulo. A ação tinha ainda um depoimento de Caetano Veloso, segundo quem a revisão sonora de fato prejudicou o original.

Em 2015, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) deu razão aos pleitos de João, mas ainda faltava definir o tamanho da vitória. Ele cobrou R$ 173 milhões. Àquela altura, a gravadora havia depositado R$ 1,5 milhão em juízo. A disputa continuou. Em 2018, a Universal pediu nova perícia para determinar a quantia, solicitação aceita pelo Tribunal de Justiça do Rio. Quase um ano depois, o mesmo tribunal confirmou, em segunda instância, a vitória de João Gilberto no processo. Ainda cabe recurso no STJ.

João Gilberto: discos considerados "a essência da bossa nova" estão fora de circulação e corre uma ação que o compositor moveu contra a gravadora
João Gilberto: discos considerados "a essência da bossa nova" estão fora de circulação e corre uma ação que o compositor moveu contra a gravadora | Foto: Ari Versani/ AFP

Não será fácil fechar a conta. Foram décadas de comercialização. Será necessário ainda levar em conta o advento da tecnologia digital, nos anos 1980, que mudou atributos sonoros e a relação econômica, razão pela qual a Justiça passou a entender que reedições digitais dependiam de nova autorização do autor. A Odeon-EMI, agora Universal, ignorou essa obrigação, mas sustentava que pagou os direitos autorais devidos e que a reedição não autorizada vendeu pouco. João Gilberto, homem e artista de desígnios resolutos, queria ir à forra. O dinheiro seria importante para reparar as finanças. O cantor fez dívidas nas últimas décadas, como um cachê adiantado para um show, em 2011, do qual desistiu.

Em 2013, por intermédio da ex-mulher, Claudia Faissol, concedeu ao banco Opportunity uma fatia da futura indenização. Em troca, recebeu suporte jurídico nas ações contra a gravadora e uma quantia em dinheiro - teriam sido R$ 5 milhões adiantados de um total de R$ 10 milhões. A falta de um acordo que privilegiasse a disponibilidade da arte de João Gilberto é razão de lamento para os admiradores, sejam eles velhos ou novos. Como Paulo Jobim, que, na infância, acompanhou o seu pai, Tom, em gravações do cantor baiano."As fitas originais da Odeon existem, é fácil resolver. É triste ver isso assim, parado, escondido. São álbuns excelentes e essenciais", diz Paulo.

Velório de João Gilberto acontece no Teatro Municipal do Rio

O cantor e compositor João Gilberto será velado em cerimônia aberta ao público nesta segunda (8) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O velório começará às 9h. Considerado o criador da Bossa Nova, João Gilberto morreu em seu apartamento no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. O primogênito do compositor não estará presente ao velório, pois está nos Estados Unidos renovando o green card e não pode deixar o país, disse o seu advogado, Gustavo Miranda.

Além de João Marcelo, fruto do casamento com a também cantora Astrud Gilberto, João Gilberto deixou outros dois filhos: Bebel Gilberto, da união com Miúcha, e Luísa, filha dele com a ex-mulher Cláudia Faissol. O cantor também estava envolvido em um complicado imbróglio familiar desde 2017. Naquele ano, sua filha, a também cantora Bebel Gilberto, começou a mover um processo de interdição do pai. O motivo era sua idade avançada e sua situação financeira, precária - ele chegou a ser despejado do apartamento em que vivia no Leblon, zona sul do Rio.

Recentemente, Bebel também havia pedido proteção judicial contra o meio-irmão, João Marcelo - ele a acusara de estar roubando o dinheiro do pai. À Folha de S.Paulo, Faissol, mãe da caçula do cantor, afirmou no final de junho que estava há cerca de um ano sem poder ver o músico, e que se as brigas entre seus dois filhos mais velhos continuassem, ele morreria de tristeza. João havia completado 88 anos no início do mês de junho, quando apareceu em uma rara fotografia publicada por sua nora, mulher de João Marcelo, nas redes sociais. No final da vida, ele morava com a namorada, a moçambicana Maria do Céu Harris. Ele não dava entrevistas e não recebia ninguém em casa, a não ser familiares. (Nicola Pamplona/

Folhapress)

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