Arquivo FolhaNunca as homenagens a um artista brasileiro foram tantas quantas as programadas para homenagear Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha - cujo centenário de nascimento é comemorado hoje. O Rio, é claro, saiu na frente, abrindo em janeiro deste ano o ciclo ‘‘Pixinguinha - 100 anos’’, com direção musical de Maurício Carrilho e Paulo Sérgio Santos. O jornalista Sérgio Cabral, que lança em maio uma biografia sobre o músico, tem sido convidado para fazer palestras em várias cidades do País, nas quais também foram programados shows comemorativos. E os netos de Pixinguinha, Marcelo e Fernando Viana, prepararam uma home-page em homenagem ao avô, além de ajudar na produção de um curta-metragem.
‘‘Ele está para o Brasil assim como Bach está para a música clássica’’, define o pesquisador Henrique Cazes, que há dez anos estuda o trabalho do compositor e foi responsável pela descoberta de várias partituras inéditas. Foi ele quem encontrou, nos arquivos de música da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma suíte composta de 26 arranjos inéditos e inacabados que não constavam nem sequer nas listas de Sérgio Cabral e Marília Barbosa Arthur Oliveira, os dois biógrafos oficiais de Pixinguinha. Também o músico Sérgio Hinds, do Terço, descobriu, com a ajuda de Marcelo Viana, uma valsa inédita de Pixinguinha, intitulada ‘‘Elza’’ e que faz parte do novo CD do grupo.
Segundo Maurício, sobrinho do flautista Altamiro Carrilho, as comemorações do centenário são uma ótima oportunidade para se resgatar o chorinho, gênero musical ligado geralmente a ‘‘uma coisa velha’’ mas que tem muito a ver com a música moderna. Afinal, Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque de Hollanda e Paulinho da Viola, entre muitos outros, também fizeram seus chorinhos.
Sucesso em Paris Pixinguinha começou a se destacar no começo do século quando integrou o grupo Os Oito Batutas, em 1919, do qual também fazia parte outro mestre da música popular brasileira - Donga, o autor do clássico ‘‘Pelo Telefone’’. Na década de 20 os Oito Batutas foram aplaudidíssimos em suas apresentações em Paris.
Pixinguinha foi compositor, maestro, arranjador, instrumentista, professor. É nome de rua, de livro, de música, enredo de escola de samba, especial de tevê e vai ganhar uma estátua, a ser inaugurada brevemente em frente ao extinto bar Gouveia, no Rio, onde ele se reunia com os amigos todas as tardes, para bate-papos regados a generosas doses de uísque e histórias saborosas da boemia carioca.
Numa tarde de janeiro de 1958, por exemplo, o autor de ‘‘Carinhoso’’, ‘‘Rosa’’ e ‘‘Lamento’’, entre outras 400 composições, exagerou nas doses de uísque durante uma animada conversa com Ary Barroso e o jornalista Paulo Bittencourt no clube Marimbás, em Copacabana. Para rebater, traçou alguns mexilhões e um frango ao molho pardo. Além de tudo, encantou os fregueses do bar com seus solos de sax. Resultado: foi parar no hospital. Dias depois, já recuperado, brincou com os amigos: ‘‘Eu não devia ter misturado. Aquele sax me fez mal...’’
O apelido, segundo os estudiosos de MPB, é uma variação do termo ‘‘pizindim’’, que quer dizer ‘‘menino bom’’ num dialeto africano. Mas também existe a versão segundo a qual o apelido, na verdade, seria ‘‘Bexiguinha’’, por causa da varíola que o atacou na infância - com o tempo, virou Pixinguinha, que foi tema de um samba-enredo da Portela (Lá vem Portela/com Pixinguinha em seu altar...).
No dia 17 de fevereiro de 1972, Pixinguinha morreu dentro da igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, onde seria padrinho de batizado de uma criança. A irreverente Banda de Ipanema desfilava na mesma hora quando a notícia chegou. Imediatamente, todos pararam de desfilar e correram para a igreja, chorando a partida do ‘‘menino bom que se tornou imortal’’ - assim definido no samba da Portela.

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