Saudade do colo da terra
Saudade do colo da terra Em entrevista à Folha2, a cantora fala sobre a magia de algumas canções, como Luar do Sertão De Curitiba Se existem algumas pedras mágicas no mundo, Maria Bethânia guarda algumas. E entre elas está Luar do Sertão, canção criada no começo do século por João Pernambuco com letra de Catulo da Paixão Cearense. É uma das mais lindas canções que ouvi em toda a minha vida, disse Bethânia em entrevista exclusiva concedida ontem à Folha2. Ela tem a verdadeira inocência e pureza do homem do sertão, ao mesmo tempo que a sua força genuína. Bethânia costumava cantá-la no coral do colégio, voz empostada, e a ouvia nas grandes vozes de Sílvio Caldas, Orlando Silva. Ao lado de Chão de Estrelas (Silvio Caldas/Orestes Barbosa) e Azulão (Jaime Ovale/Manuel Bandeira), entre outras, Luar do Sertão ocupa o seleto terreno das canções sagradas. Aliás, para a cantora é difícil entender como Chão de Estrelas e Azulão viveram sempre separadas. Elas se locupletam. O show no palco do Guairão, nesta noite, é o meu jeito individual de olhar o meu País. É uma saudade do colo da terra... Sabe quando a terra te recebe? Ela é a grande mãe, a grande força, explicou com jeito de quem declamava poesia. Hoje o homem moderno vive lutando, sem tempo de olhar para essa magia que é tão importante. Sem esse elemento mágico a gente fica solitária demais. O homem está solitário. No entendimento da artista o ser humano está se tornando órfão de si próprio, à medida que é levado pelo redemoinho da vida. Ele está se isolando cada vez mais, divorciando-se de sua sacralidade. Quanto mais só, mais se torna pequeno. É preciso voltar-se às leis do espírito e da magia. Pensando nisso Bethânia buscou um repertório muito simples, mas verdadeiro. Com essas preocupações e esse idealismo de dizer as coisas, discos e espetáculos afins seriam como cartas jogadas ao mar? O artista sempre faz mensagens que vai enviando às pessoas; e muitas vezes elas são dirigidas para a gente mesmo. Para ver se não perde o fio da meada, respondeu. Maria Bethânia contou uma história singela, comovente. Quando chegou ao Rio, ainda menina, aos 17 anos, costumava ir na casa de Rosinha de Valença, num bairro carioca, e a grande violonista tinha por hábito ouvir um programa de música caipira no final da tarde. Isso durou muito tempo, e sempre num radinho de pilha, lembrou. À medida que tocavam as músicas no rádio, Rosinha acompanhava ao violão aqueles sons que chegavam na casa. Era lindo vê-la tocar. E quando apresentavam Luar do Sertão é claro que era das canções mais importantes. Junta-se, pois, a imagem da memória da menina nessa espécie de refúgio. De um lado estava a vida se abrindo em sucesso e profissão, de outro a moça interiorana numa espécie de refúgio. Essa música é um pouco colo, finalizou Bethânia. (Z.C.L.)





