Mesmo com muitas cenas a serem gravadas e sem muito tempo para diversões, Murilo Benício não esconde a satisfação em ter sido o protagonista da novela ‘‘O Clone’’, cujo último capítulo será reapresentado hoje. Há uma razão muito especial para isso: o ator não estava cotado para o papel de protagonista de ‘‘O Clone’’. Para viver os gêmeos Lucas e Diogo, além do clone Léo, a Globo convocou primeiro Eduardo Moscovis e Fábio Assunção, que não aceitaram o convite. Com performance modesta em três novelas anteriores ao ‘‘O Clone’’ – ‘‘Esplendor’’, ‘‘Meu Bem Querer’’ e ‘‘Por Amor’’ –, o próprio Murilo se ofereceu para trabalhar na produção dirigida por Jayme Monjardim. A atitude foi, no mínimo, corajosa, já que as chances de êxito de ‘‘O Clone’’ eram vistas com resistência até mesmo pela toda-poderosa Marluce Dias da Silva, diretora executiva da Globo. ‘‘Encarei uma parada dura, mas dei conta do recado’’, acredita o ator.
A ‘‘parada dura’’ a que Murilo se refere, além de dar conta de três personagens, tem a ver com as críticas que recebeu, principalmente na primeira fase da novela. Mas o próprio ator reconhece que antes da entrada do clone na produção e com a morte do irmão Diogo, o soturno Lucas estava um chato de carteirinha. ‘‘Até eu achava isso, imagina o público’’, assume Murilo.
Você se ofereceu para protagonizar ‘‘O Clone’’ após dois atores desistirem e a novela chega ao fim com ótimos 60 pontos de média. Aumentou o seu prestígio na Globo?
Talvez, pois realmente peguei uma parada dura. Foi muito trabalho. Confesso que dá até pena de ter acabado a novela porque toda a equipe se entendeu bem em ‘‘O Clone’’. Acho que dei conta do recado sim. Foi uma experiência maravilhosa até mais para mim do que para qualquer outra pessoa, porque tive altos e baixos na novela. Senti uma coisa legal durante toda a produção, que é não estar agradando o tempo inteiro. Às vezes, a gente precisa deixar de ser egoísta e desejar ficar interessante o tempo inteiro, porque é uma novela que está andando. Não é o Murilo Benício. É legal saber que tal hora você vai estar mais de lado e outra pessoa em evidência.
Você foi alvo de muitas críticas durante a novela. Isso chegou a afetar seu rendimento como ator?
Não deixei me abater. Acho tudo uma besteira. Não ligo mais para críticas. Então, não tenho nem o que dizer. Imagina, até o Miguel Falabella apareceu me sacaneando... Tento não dar mais importância para este tipo de coisa. O importa para mim é que, pessoalmente, a novela como projeto foi maravilhosa e uma surpresa. Porque as pessoas desde o começo acreditavam no projeto, mas não esperavam este sucesso todo que foi. Até porque uma novela, por mais sucesso que seja, dificilmente alcança o nível de sucesso que ‘‘O Clone’’ alcançou. Por isso, não tenho medo de dizer que esta novela superou as minhas expectativas em relação a tudo. Até a equipe e aos atores que estavam envolvidos com o projeto e em relação ao resultado final.
A própria emissora ficou receosa do sucesso de ‘‘O Clone’’ devido aos temas da novela, no caso, a clonagem, drogas e o mundo muçulmano. Na sua opinião, o que levou ‘‘O Clone’’ a chegar na reta final com tanta audiência?
É uma união de fatores que levam a novela a ter o reconhecimento do público e a audiência crescente do início ao fim. Sem dúvida que a Glória Perez desenvolveu a trama de uma maneira que fez com que o público não rejeitasse e começasse a se interessar pelo mundo muçulmano, apesar do atentado de 11 de setembro. Mas um item foi essencial: a escalação dos atores, que acabaram sendo sabiamente escolhidos.
Interpretar as cenas em que você apareceu duplamente foi a parte mais complicada da novela?
Sem dúvida em termos técnicos é realmente complicado. Até porque eu me prendia aos movimentos que o dublê fazia. Então, nem posso fazer algo muito diferente. Não foi raro fazer uma cena em que tentava virar o rosto e o diretor falava para não virar tanto porque o dublê não havia feito daquela maneira. Aí você fica mais uma vez um pouco amarrado com isso em termos de interpretação. E a parte técnica, de posicionamento, é trabalhosa de realizar.
Você destacaria alguma passagem da novela que o surpreendeu em termos de interpretação?
Teve uma cena que mexeu comigo. Foi a única vez que eu fiz o Léo chorar de verdade. Com lágrimas mesmo. Foi quando o clone viu a Jade pela primeira vez na morada do Tio Ali. Decidi chorar porque achei que seria o único momento da vida dele que, de alguma forma, ele se sentiria realmente em casa e teria a certeza que não estava maluco. Ou seja, a imaginação dele fazia sentido e, de alguma forma, ele já havia vivido aquilo.
Sua opinião sobre a clonagem mudou durante a novela?
Ainda continuo pensando que a única coisa legal da clonagem é a possibilidade de, através dela, poder fazer os seus órgãos no laboratório. Se você tem um problema de coração, não precisa mais receber um coração de outra pessoa. Você pega o seu próprio DNA e faz um outro igual ao seu. Este é o sentido da clonagem e não fazer pessoas iguais.

mockup