Satisfação em dose dupla
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de junho de 2002
Rodrigo Teixeira<BR>TV Press 
Mesmo com muitas cenas a serem gravadas e sem muito tempo para diversões, Murilo Benício não esconde a satisfação em ter sido o protagonista da novela O Clone, cujo último capítulo será reapresentado hoje. Há uma razão muito especial para isso: o ator não estava cotado para o papel de protagonista de O Clone. Para viver os gêmeos Lucas e Diogo, além do clone Léo, a Globo convocou primeiro Eduardo Moscovis e Fábio Assunção, que não aceitaram o convite. Com performance modesta em três novelas anteriores ao O Clone Esplendor, Meu Bem Querer e Por Amor , o próprio Murilo se ofereceu para trabalhar na produção dirigida por Jayme Monjardim. A atitude foi, no mínimo, corajosa, já que as chances de êxito de O Clone eram vistas com resistência até mesmo pela toda-poderosa Marluce Dias da Silva, diretora executiva da Globo. Encarei uma parada dura, mas dei conta do recado, acredita o ator.
A parada dura a que Murilo se refere, além de dar conta de três personagens, tem a ver com as críticas que recebeu, principalmente na primeira fase da novela. Mas o próprio ator reconhece que antes da entrada do clone na produção e com a morte do irmão Diogo, o soturno Lucas estava um chato de carteirinha. Até eu achava isso, imagina o público, assume Murilo.
Você se ofereceu para protagonizar O Clone após dois atores desistirem e a novela chega ao fim com ótimos 60 pontos de média. Aumentou o seu prestígio na Globo?
Talvez, pois realmente peguei uma parada dura. Foi muito trabalho. Confesso que dá até pena de ter acabado a novela porque toda a equipe se entendeu bem em O Clone. Acho que dei conta do recado sim. Foi uma experiência maravilhosa até mais para mim do que para qualquer outra pessoa, porque tive altos e baixos na novela. Senti uma coisa legal durante toda a produção, que é não estar agradando o tempo inteiro. Às vezes, a gente precisa deixar de ser egoísta e desejar ficar interessante o tempo inteiro, porque é uma novela que está andando. Não é o Murilo Benício. É legal saber que tal hora você vai estar mais de lado e outra pessoa em evidência.
Você foi alvo de muitas críticas durante a novela. Isso chegou a afetar seu rendimento como ator?
Não deixei me abater. Acho tudo uma besteira. Não ligo mais para críticas. Então, não tenho nem o que dizer. Imagina, até o Miguel Falabella apareceu me sacaneando... Tento não dar mais importância para este tipo de coisa. O importa para mim é que, pessoalmente, a novela como projeto foi maravilhosa e uma surpresa. Porque as pessoas desde o começo acreditavam no projeto, mas não esperavam este sucesso todo que foi. Até porque uma novela, por mais sucesso que seja, dificilmente alcança o nível de sucesso que O Clone alcançou. Por isso, não tenho medo de dizer que esta novela superou as minhas expectativas em relação a tudo. Até a equipe e aos atores que estavam envolvidos com o projeto e em relação ao resultado final.
A própria emissora ficou receosa do sucesso de O Clone devido aos temas da novela, no caso, a clonagem, drogas e o mundo muçulmano. Na sua opinião, o que levou O Clone a chegar na reta final com tanta audiência?
É uma união de fatores que levam a novela a ter o reconhecimento do público e a audiência crescente do início ao fim. Sem dúvida que a Glória Perez desenvolveu a trama de uma maneira que fez com que o público não rejeitasse e começasse a se interessar pelo mundo muçulmano, apesar do atentado de 11 de setembro. Mas um item foi essencial: a escalação dos atores, que acabaram sendo sabiamente escolhidos.
Interpretar as cenas em que você apareceu duplamente foi a parte mais complicada da novela?
Sem dúvida em termos técnicos é realmente complicado. Até porque eu me prendia aos movimentos que o dublê fazia. Então, nem posso fazer algo muito diferente. Não foi raro fazer uma cena em que tentava virar o rosto e o diretor falava para não virar tanto porque o dublê não havia feito daquela maneira. Aí você fica mais uma vez um pouco amarrado com isso em termos de interpretação. E a parte técnica, de posicionamento, é trabalhosa de realizar.
Você destacaria alguma passagem da novela que o surpreendeu em termos de interpretação?
Teve uma cena que mexeu comigo. Foi a única vez que eu fiz o Léo chorar de verdade. Com lágrimas mesmo. Foi quando o clone viu a Jade pela primeira vez na morada do Tio Ali. Decidi chorar porque achei que seria o único momento da vida dele que, de alguma forma, ele se sentiria realmente em casa e teria a certeza que não estava maluco. Ou seja, a imaginação dele fazia sentido e, de alguma forma, ele já havia vivido aquilo.
Sua opinião sobre a clonagem mudou durante a novela?
Ainda continuo pensando que a única coisa legal da clonagem é a possibilidade de, através dela, poder fazer os seus órgãos no laboratório. Se você tem um problema de coração, não precisa mais receber um coração de outra pessoa. Você pega o seu próprio DNA e faz um outro igual ao seu. Este é o sentido da clonagem e não fazer pessoas iguais.


