Sassá Mutema está de volta
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de abril de 1998
Estelio Feldman 
Arquivo FolhaLima Duarte na pele de Sassá Mutema: metáfora de um Brasil à procura de um salvadorNão sei se os programadores da Rede Globo são tão sutis, mas é certo que programar para esta época a reapresentação da novela Salvador da Pátria, que será levada a partir de hoje no Vale a pena ver de novo parece uma idéia muito interessante. A novela, para quem não lembra, foi uma espécie de alegoria política, apresentada numa época em que nós, realmente, procurávamos alguém que pudesse salvar esta pátria tão amada, tão assaltada e tão descurada. Sassá Mutema, personagem vivido magistralmente por Lima Duarte, era o protótipo do Brasil, um analfabeto teimoso, que ousou sonhar. E que, através de um longo caminho - aparentemente impossível - consegue se tornar exatamente a esperança para seu universo ficcional.
Os tempos mudaram, a gente pode dizer, mas a verdade é que continuamos hoje com idéias muito semelhantes. Se é certo que o povo evoluiu, e se a gente não está tão desesperada como antes, em busca de um salvador da Pátria, é inegável que há alguns políticos que insistem em pensar que eles são exatamente isto. Gente que se considera predestinada, que se acha insubstituível, que acredita que tem a missão de salvar a pátria. E esta idéia pode ser tão ruim ou nefasta quanto a anterior, de um povo em busca de um messias para resolver, de preferência sem dor e sem sofrimento, todos os problemas do país.
Infelizmente, sabe-se, os nossos salvadores da pátria não têm medo para ver TV. Menos ainda para assistir a novelas em reprise que são mostradas no período da tarde, como é o caso do Vale a pena ver de novo. Ainda assim, esta reapresentação serve para trazer de novo a temática à discussão. E é fora de dúvida que, apesar do horário difícil, é uma atração que efetivamente está de acordo com o título. Porque vale a pena mesmo ver de novo este corte microcósmico do Brasil, personagens ainda atuais da política e da vida, iguais a tanta gente que continua a agir e, em muitos casos, a infelicitar este pobre país que precisa é de quem o salve de seus pretensos salvadores.


