Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir passaram mais de dois meses no Brasil em 1960 e, quando saíram do País em direção a Cuba, no dia 21 de outubro, deixaram vestígios de uma permanência ao mesmo tempo histórica e controvertida. Recebido como celebridade por pessoas que pouco conheciam seu pensamento, o casal chegou a provocar polêmica quando Sartre propôs uma literatura popular e engajada, que tivesse como objetivo despertar para idéias como o reconhecimento pelo povo de sua condição social e o impulsionasse para a ação revolucionária.
Simone e Sartre vinham de uma visita à Cuba revolucionária e o discurso dele, proferido em São Paulo, desencadeou uma exaltação nos meios universitários e jornalísticos, ao mesmo tempo em que despertou a ofensa dos nacionalistas. A história é um dos destaques do livro ‘‘A Passagem de Sartre e Simone de Beauvoir’’ pelo Brasil em 1960 (‘‘Mercado de Letras’’, 368 páginas), escrito por Luís Antônio Contatori Romano. Interessado nos passos do casal de intelectuais, ele pesquisou em arquivos e bibliotecas de São Paulo, Rio, Salvador e no Recife, principais cidades por onde eles viajaram, que resultou em seu trabalho de doutoramento em Teoria Literária pela Unicamp.
‘‘Procuro trazer à luz episódios como a característica mordacidade da imprensa nacional ao atribuir o sucesso das conferências da feminista Simone de Beauvoir à presença de Sartre no Brasil, mesmo quando ele estivesse delas ausente’’, escreve Romano, que cotejou o material com os livros memorialistas da escritora. Convidado por Jorge Amado, o casal desembarcou no Recife a 12 de agosto, iniciando um périplo marcado por momentos irônicos e marcantes.
Pensador radical e disposto a marcar sua presença por meio de gestos simbólicos, Sartre defendeu a difusão da Revolução Cubana ao mesmo tempo em que visitou uma favela no Rio no momento em que Carolina de Jesus publicava o livro ‘‘Quarto de Despejo’’. Aceitou também aparecer em um programa ao vivo da TV Excelsior de São Paulo, um fato inédito na televisão brasileira, quando falou sobre política, filosofia e literatura.
Em Salvador, Simone e Sartre revelaram um grande interesse em assistir a uma sessão de candomblé, cuja influência constataram mesmo entre as elites urbanas. Levados a um terreiro por Jorge Amado, lá encontraram o fotógrafo e antropólogo francês, radicado na Bahia, Pierre Verger. ‘‘Essa visita motivou interessantes reflexões de Simone sobre os transes durante as sessões, que via como momentos de integração na comunidade de um povo cindido em sua cultura e desvalorizado nas relações sociais’’, observa Romano.
No Rio, eles se encontraram com Luís Carlos Prestes, que Simone afirmara conhecer por meio da leitura de ‘‘O Cavaleiro da Esperança’’, de Jorge Amado. Segundo Romano, o casal desgostou do líder do Partido Comunista por este apoiar a candidatura Lott à presidência, atacar as ligas camponesas e pregar moderação. Ainda no Rio, encontraram-se com Oscar Niemeyer, que os convidou para conhecer Brasília, ‘‘uma maquete em tamanho natural’’, segundo Simone. O casal ainda visitou a Fazenda Conceição do Barreiro, onde Sartre travou longas conversas com Júlio de Mesquita Filho, então diretor de ‘‘O Estado de S.Paulo’’, principal órgão veiculador de sua viagem ao Brasil.
Além do estímulo às discussões políticas e sociais, a vinda de Simone e Sartre favoreceu a troca de idéias sobre a produção teatral. Romano observa que o casal provocou a publicação de um número considerável de artigos em que críticos como Benedito Nunes, Sábato Magaldi, Alceu Amoroso Lima e Lívio Xavier, entre outros, estabeleceram um produtivo debate entre si e com críticos estrangeiros (cujos artigos foram traduzidos) sobre a relação entre o pensamento filosófico e a obra teatral de Sartre. Fascinado pelo Brasil, o escritor confessou a Jorge Amado o desejo de voltar dois anos depois, apenas como turista, para observar mais atentamente a diversidade cultural. Sartre, porém, não voltou. Calou-se sobre o Brasil.

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