Saramago ganha o Nobel
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quinta-feira, 08 de outubro de 1998
France Presse 
O Nobel de Literatura 1998 foi atribuído ontem pela primeira vez a um escritor português: José Saramago, que completa 76 anos em novembro. O prêmio lhe foi atribuído por ter tornado tangível uma realidade fugidia, graças às suas parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia, segundo as considerações da Real Academia da Suécia.
Residente nas Ilhas Canárias, Saramago é de origem operária e não obteve verdadeira notoriedade até 1982, quando tinha 60 anos, com Memorial do Convento, romance de tríplice perspectiva: histórica, social e individual. A inteligência e a riqueza de imaginação que se expressam nela marcam em geral a obra de Saramago, destaca a Real Academia da Suécia.
Um de seus romances mais conhecidos, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), que transcorre em Lisboa em 1936, em plena ditadura, submerge numa atmosfera de irrealidade habilmente evocada, acrescenta a Academia.
Esta atmosfera é acentuada pelas repetidas visitas à casa do personagem do falecido poeta Fernando Pessoa, durante as quais os dois conversam sobre as condições da existência.
Em A Jangada de Pedra (1986), José Saramago imagina que a península Ibérica se separa do continente europeu e parte à deriva pelo Atlântico. Esta situação dá ao escritor a ocasião de comentar, de maneira muito pessoal, a vida em sua grandeza e suas baixezas e de ironizar as autoridades e os políticos (...) pondo sua intensidade a serviço da sabedoria, estima a academia.
O texto da academia destaca a arte literária de Saramago, desenvolvida com obstinação, afirmando que sua obra se apresenta como uma série de projetos, na qual um desautoriza mais ou menos o outro, mas na qual todos constituem novas tentativas de delimitar uma realidade fugidia.
Seu último romance, Todos os Nomes (1997), conta a história de um funcionário do registro civil de dimensões quase metafísicas. Obcecado por um dos nomes, segue sua pista até um fim trágico.
José Saramago receberá oficialmente o prêmio em Estocolmo a 10 de dezembro próximo, junto com as 7,6 milhões de coroas que equivalem aos 938.000 dólares. Será entregue pelo rei Carl XVI Gustaf da Suécia.
No ano passado, o Nobel de Literatura foi dado, de maneira totalmente surpreendente, ao dramaturgo italiano Dario Fo, que foi o sexto italiano a ganhar a distinção.
Esta é 95ª vez que se outorga o Nobel de Literatura. A França lidera a lista dos escritores laureados, com 12, seguida dos Estados Unidos (10), Grã-Bretanha (8), Alemanha (7) e Suécia e Itália (6).
Ao longo de sua história, dois laureados recusaram o prêmio: Boris Pasternak (ex-URSS) em 1958 e Jean-Paul Sartre (França) em 1964. O prêmio de Literatura não foi concedido em cinco ocasiões: em 1935, 1940, 1941, 1942 e 1943.


