O Nobel de Literatura 1998 foi atribuído ontem pela primeira vez a um escritor português: José Saramago, que completa 76 anos em novembro. O prêmio lhe foi atribuído por ‘‘ter tornado tangível uma realidade fugidia, graças às suas parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia’’, segundo as considerações da Real Academia da Suécia.
Residente nas Ilhas Canárias, Saramago é de origem operária e não obteve verdadeira notoriedade até 1982, quando tinha 60 anos, com ‘‘Memorial do Convento’’, romance de tríplice perspectiva: histórica, social e individual. ‘‘A inteligência e a riqueza de imaginação que se expressam nela marcam em geral a obra de Saramago’’, destaca a Real Academia da Suécia.
Um de seus romances mais conhecidos, ‘‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’’ (1984), que transcorre em Lisboa em 1936, em plena ditadura, ‘‘submerge numa atmosfera de irrealidade habilmente evocada’’, acrescenta a Academia.
Esta atmosfera é acentuada pelas repetidas visitas à casa do personagem do falecido poeta Fernando Pessoa, durante as quais os dois conversam sobre as condições da existência.
Em ‘‘A Jangada de Pedra’’ (1986), José Saramago imagina que a península Ibérica se separa do continente europeu e parte à deriva pelo Atlântico. Esta situação dá ao escritor ‘‘a ocasião de comentar, de maneira muito pessoal, a vida em sua grandeza e suas baixezas’’ e de ‘‘ironizar as autoridades e os políticos (...) pondo sua intensidade a serviço da sabedoria’’, estima a academia.
O texto da academia destaca ‘‘a arte literária de Saramago, desenvolvida com obstinação’’, afirmando que ‘‘sua obra se apresenta como uma série de projetos, na qual um desautoriza mais ou menos o outro, mas na qual todos constituem novas tentativas de delimitar uma realidade fugidia’’.
Seu último romance, ‘‘Todos os Nomes’’ (1997), conta a história de um funcionário do registro civil de dimensões quase metafísicas. Obcecado por um dos nomes, segue sua pista até um fim trágico.
José Saramago receberá oficialmente o prêmio em Estocolmo a 10 de dezembro próximo, junto com as 7,6 milhões de coroas que equivalem aos 938.000 dólares. Será entregue pelo rei Carl XVI Gustaf da Suécia.
No ano passado, o Nobel de Literatura foi dado, de maneira totalmente surpreendente, ao dramaturgo italiano Dario Fo, que foi o sexto italiano a ganhar a distinção.
Esta é 95ª vez que se outorga o Nobel de Literatura. A França lidera a lista dos escritores laureados, com 12, seguida dos Estados Unidos (10), Grã-Bretanha (8), Alemanha (7) e Suécia e Itália (6).
Ao longo de sua história, dois laureados recusaram o prêmio: Boris Pasternak (ex-URSS) em 1958 e Jean-Paul Sartre (França) em 1964. O prêmio de Literatura não foi concedido em cinco ocasiões: em 1935, 1940, 1941, 1942 e 1943.

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