‘‘Aqui termina minha relação com o cinema’’. A sentença foi pronunciada em 1973 por Ingmar Bergman, encerradas as filmagens de ‘‘Fanny e Alexandre’’. Inquieto – melhor dizendo, faminto –, já que sempre sustentou que sua paixão criadora vinha das entranhas, ele não pôde cumprir a promessa. Ainda bem. Continuou fazendo cinema, ainda que para a tevê. Seu filme derradeiro, ‘‘Sarabanda’’, não faz muito foi lançado em vídeo no Brasil.
  Vi esta última obra-prima em Cannes-2003, e já naquela apoteótica estréia mundial o filme parecia emoldurado por esta rara e luminosa aura que circunda as peças de valor artístico e histórico. O título ‘‘Sarabanda’’ procede do quarto movimento da ‘‘Suíte Número 5 para Violoncelo’’, de Bach, um tema musical que acentua o tom dramático do filme. Aqui, Bergman volta a contar com dois de seus atores mais fiéis, a ex-mulher Liv Ullman, à época com 66 anos, e Erland Josephson, 82 anos.
  Há 30 anos, os dois interpretaram vida, paixão e morte afetiva de um casal que se separava ao final de ‘‘Cenas de um Casamento’’, série televisiva que o cineasta também lançou nos cinemas de todo o mundo. Passado este tempo, Bergman decidiu promover o reencontro daqueles dois, já na velhice. O filme desemboca, como é costume nos domínios do cineasta, em uma inquietante história com múltiplas leituras
  ‘‘Sarabanda’’ – uma possível, mas não a única, inscrição para a lápide no túmulo do cineasta. (C.E.L.J.)

mockup