Sapato de palhaço desafia camburão
Prenderam o palhaço Tico Bonito em plena rua, durante o espetáculo, quando a plateia era um aglomerado de crianças e adolescentes repetindo o rito centenário de aplaudir a graça num dia comum. Foi na sexta-feira da semana passada, em Cascavel. Eu já havia entregado o texto de domingo, mas assisti ao vídeo e a cena da prisão de Tico Bonito ficou na minha cabeça, como um apelo de inconformismo clamando pela liberdade.
Foi tudo muito rápido, de repente, porque o palhaço criticou a polícia e o governador do Estado, esticando o número aos limites de um ato político, apareceram os guardas com seus uniformes e atitudes repressivas aquelas de quem parece estar sempre prendendo um bandido. Os coturnos duros batiam pesado como suas falas, tentaram enfiar Tico num camburão como se ele fosse um palhaço desdobrável, mas não era. Tico reagiu como pode, o chapéu continuou grudado na cabeça, o nariz de palhaço não saiu do lugar, os sapatos mal cabiam na parte traseira do carro, bicudos como suas frases de protesto: "É um festival, é um festival. Vocês não gostam de teatro de rua?"
Ninguém ouvia nada. Os guardas continuaram resolutos dizendo que ele havia "desacatado as autoridades", enquanto seus sapatos, sem querer, desacatavam a polícia: tentavam dobrar uma perna e escapava a outra, como se os membros de um palhaço fossem maiores do que os do resto da humanidade e seus sapatos brilhavam como se estivessem sido lustrados com purpurina. Palhaço é isso, um ser sempre além da conta, que extrapola as medidas porque é essa sua função, ser um fora da lei que nunca se adapta à disciplina, que existe para bagunçar as convenções e balançar as estruturas com a arma que sempre desafiou a lógica: o riso.
Vem de longe a ideia que o riso ofende. De forma inteligente os bobos da corte já sabiam disso e temperavam seus números com as sátiras que faziam reis sorrir, enquanto se roíam por dentro. Penso que o riso sempre provocou a raiva do rei de Roma. Mais de uma vez, na minha vivência de repórter de cultura, vi autoridades sorrirem entredentes, enquanto comediantes repetiam aquelas verdades que só os bobos são capazes de dizer com tanta naturalidade e sem culpa.
O clima ficou tenso em Cascavel no dia em que prenderam Tico Bonito. No ato, muitas pessoas tentavam esclarecer que quem estava sendo preso era o cidadão Leônidas Quadra, mas os apelos em favor do cidadão não foram atendidos, tampouco em favor do palhaço. Ele foi retirado do seu picadeiro improvisado e dobrado feito um figurino. Como um símbolo frágil da liberdade de expressão foi enfiado no camburão aos trancos, enquanto à sua volta, nas costas dos policiais lia-se a palavra "choque", "choque", que se refere ao Batalhão de Choque da PM mas que representava também o choque da população ao ver um palhaço sendo preso. Ele foi levado a uma delegacia para registrar BO e para marcarem audiência com um juiz. Soube depois que o governador pediu abertura de inquérito para apurar se houve abuso de autoridade, além de ter distribuído nota em defesa da "liberdade de expressão". Tico Bonito replicou a nota nas redes sociais.
Seja como for, fica o choque de uma constatação grave: os tempos não estão para fazer graça, uma nuvem de desgraça levanta-se a cada vez que ouvimos a batida dos coturnos e da cavalaria que também estava presente quando prenderam Tico que fez bonito até a última cena, quando o enfiaram definitivamente no camburão enquanto o sapato de palhaço teimava em ficar para fora, desacatando a ordem, a autoridade e o absurdo como nenhum discurso é capaz. Há signos que falam por si mesmos como os sapatos de Tico, grandes como um número absurdo, um excesso incontido, uma graça que transborda apesar da tentativa inútil da polícia reprimir o irreprimível na captura de um passo que sempre vai além.
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