São Paulo recebe amanhã o melhor da música cubana
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Jotabê Medeiros
FOLHA no Google News
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Jotabê Medeiros
São Paulo, 08 (AE) - É mais ou menos como se a Velha Guarda da Portela desembarcasse aqui após quase um século fazendo música em algum outro País. O melhor da música cubana, uma das mais ricas e variadas do planeta, chega amanhã a São Paulo com os veteranos "soneros" da ilha de Fidel, entre eles o pianista Rubén González, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e o lendário cantor Compay Segundo.
Essa fase suingada da música cubana, que começou a florescer no início do século, foi recentemente "revelada" ao mundo pelo guitarrista americano Ry Cooder (o mesmo da trilha de "Paris, Texas", de Wim Wenders). A convite de sua gravadora, Cooder foi levado a conhecer os velhos mestres cubanos.
O resultado desse encontro foi o disco "Buena Vista Social Club", que já vendeu 1,5 milhão de cópias ao redor do mundo e rendeu um Grammy para os seus participantes. Também rendeu um precioso documentário, que foi a atração do último Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha.
O maestro, arranjador, cantor e produtor musical (além de tocador de três) Juan de Marcos González dirigiu a maior parte dos discos que marcam a ressurreição dos "soneros" cubanos, incluindo "Buena Vista Social Club" e "A Toda Cuba Le Gusta", do grupo Afro Cuban All Stars. Em entrevista à AGÒNCIA ESTADO por telefone, de Cuba, González falou da expectativa de mostrar o legado cultural cubano aos músicos brasileiros, que admira.
AGÒNCIA ESTADO - Como o senhor definiria o son cubano? Juan de Marcos González - O son cubano é uma peça que mescla os elementos harmônicos europeus com elementos rítmicos africanos. As diferenças entre os diferentes estilos explicam-se pelos variados acentos. No son montuno, há uma alternância entre o vocal principal e o coro. No bolero-son, o tempo é mais lírico
intimista, sentimental. São ao todo 14 tipos distintos de son.
AE - O senhor crê que a visita do americano Ry Cooder tenha colaborado para o renascimento da velha música cubana?
González - Não só da velha música cubana como da atual também. Por razões políticas, a música de Cuba sofreu por muito tempo embargo das grandes corporações. Mas, agora, as grandes companhias estão interessadas em trabalhar com a música cubana, ao mesmo tempo que músicos estão aqui buscando aprender algo com os músicos de Cuba, como Peter Frampton e Sting, por exemplo. Penso que, em alguns anos, as portas do mercado internacional se abrirão para Cuba. Lastimavelmente, há também um problema de divulgação. A música só se torna conhecida se tiver um grande apoio estratégico de marketing, mesmo que seja boa música.
AE - O senhor vê semelhanças entre a música brasileira e o son cubano?
González - Sim, eles se parecem bastante. Porque ambos têm elementos afro e acentos na percussão. A única e essencial diferença é que o samba faz o acento no tempo forte, e no son nunca se toca sobre o tempo forte, além de ter um compasso antes que a música se inicie. Mas, do ponto de vista genérico, há coincidência quanto à origem e ao sentimento que têm a música brasileira e a cubana. Conheço bastante a música brasileira, Chico Buarque, Caetano, Maria Bethânia, Simone. É uma música bastante popular aqui em Cuba. Já o mercado brasileiro é muito complicado para a música cubana, porque é interno - o público brasileiro consome a música brasileira primordialmente.
AE - E o jazz americano? O senhor crê que a música cubana foi muito influenciada pelo jazz americano nos anos 20 e 30?
González - Acho que há uma influência mútua. Nos anos 40
Dizzie Gillespie começou a tocar jazz com percussão afro-cubana. E, alguns anos depois, o cubano Mário Louzan, um dos mais importantes músicos cubanos de todos os tempos, começou a fazer nos Estados Unidos aquilo que acabou se chamando de afro-cuban jazz.
AE - O senhor acha que os músicos cubanos de maior sucesso comercial fora de Cuba fazem uma música autenticamente cubana, como Célia Cruz, por exemplo?
González - Célia Cruz é absolutamente boa. Acho que todos os cubanos que fazem uma música internacional de raízes cubanas são muito cubanos. Claro, há exceções. Glória Stephan, por exemplo, é praticamente americana. Ela cresceu nos Estados Unidos e não conserva suas referências. Mas há grandes mestres no mercado internacional, como Paquito dRivera. Não é o fato de ser uma música comercial que a torne menos importante. O problema é quando cantam coisas que não são relevantes.
AE - Rubén Gonzalez e Compay Segundo são verdadeiros mitos da música cubana. Eles saem com frequência de Cuba? Já estiveram na América do Sul?
González - Sim, sua música tem muito êxito nos Estados Unidos e Europa. Já estiveram há muitos anos na América do Sul, mas nunca no Brasil. Eu espero que a música cubana possa convencer o público brasileiro porque, afinal de contas, são muito semelhantes.