São Paulo recebe 5,5 milhões de visitantes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de maio de 2001
Zuleika Haddad Agência Estado 
Terceira metrópole do mundo, São Paulo recebe por ano cerca de 5,5 milhões de visitantes. Segundo a Anhembi Turismo e Eventos, 76% deles visitam a cidade a negócios e poucos ficam mais que três dias o estritamente necessário para cumprir seus compromissos. Entre os turistas estrangeiros, que chegam a 1 milhão anualmente, uma das reclamações mais frequentes relaciona-se à falta de serviços bilíngues e sinalização turística. Apesar dessa falta de estrutura, a prefeita Marta Suplicy (PT) aposta no turismo de negócios para ampliar o mercado de trabalho na cidade.
Sinceramente, quando alguém nos Estados Unidos me pergunta sobre bons lugares para visitar em São Paulo, não sei responder, pois não conheço, diz o comissário de bordo da United Airlines Richard Quinter, de 50 anos. Ele mora em New Jersey (EUA) e visita regularmente a cidade desde novembro. Dos milhares de bares que existem na cidade, Quinter frequenta somente o OMalleys, nos Jardins. Eles falam inglês. É mais fácil, explica.
Na semana passada, quando teve um dia livre na cidade, Quinter quis cuidar do visual. Foi a um cabeleireiro fazer a barba e as unhas. Disse que só conseguiu chegar até lá e fazer tudo o que queria porque uma amiga brasileira explicou aos funcionários o que ele pedia.
As informações turísticas são desarticuladas, não chegam com antecedência às prateleiras das agências de viagem ou aos prestadores de serviços do setor, admite o presidente da Anhembi Turismo, Eduardo Sanovicz. Por isso o turista não pode se programar para ficar na cidade.
De acordo com uma pesquisa de 1999 da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), o turista estrangeiro permanece, em média, sete dias na cidade, gastando cerca de R$ 284,50 por dia. Quando vem a negócios, fica, em média, três dias. Acho que a divulgação de restaurantes típicos brasileiros, por exemplo, é muito falha, comenta o economista francês Eric Robert, de 40 anos. Em seu curto período de tempo livre na cidade, ele saiu apenas quando acompanhado dos colegas brasileiros.
Um dos locais a que a aeromoça norte-americana Donna Berry-Mackey, de 44 anos, costuma ir quando está na capital é a Churrascaria Vento Haragano, nos Jardins. Sua explicação é simples. Eles oferecem serviço de van, que nos pega no hotel, e falam inglês.
Uma estimativa feita pelo vice-presidente da Associação de Bares e Restaurantes Diferenciados do Estado de São Paulo (Abredi), Rogério Oliva, indica que somente 200 a 300 estabelecimentos gastronômicos num universo de 70 mil têm alguma forma de atendimento ao turista estrangeiro. Para evitar transtornos, os funcionários do Hotel Maksoud Plaza, por exemplo, procuram testar todos os bares e restaurantes antes de recomendá-los aos hóspedes. É a maneira de nos certificarmos de que serão bem atendidos, diz o subgerente, Marcelo Rosa Lima. No hotel, os clientes estrangeiros também podem contar com o serviço de carros de luxo com motoristas que falam inglês. Alguns turistas estrangeiros chegam a pedir aos motoristas que os acompanhem em compras e até em jantares, por causa do problema em entender o português.
Longe da suntuosidade do Maksoud, investimentos mais modestos fazem a diferença quando se trata de atrair o turista estrangeiro. Foi o que aprendeu o empresário Edson Rico, proprietário das Padarias Santa Etienne, nos Jardins e Vila Madalena, que incluiu há dois anos o cardápio bilíngue (português e inglês) nas duas casas. Incentivado pelo patrão, um dos garçons está aprendendo a falar inglês para ajudar no atendimento aos clientes estrangeiros.
Segundo Rico, cerca de 40 estrangeiros na maior parte norte-americanos vão diariamente à sua padaria nos Jardins. A cada mês esse número aumenta. Muitos, diz, chegam ao local por indicação. Nas semanas do Grande Prêmio de Fórmula 1, ele mesmo faz questão de ajudar a atender os quase 500 estrangeiros que, segundo seus cálculos, frequentam a padaria.
O custo dos cardápios que garantem a volta e as indicações de sua casa não é baixo para uma padaria: 60 unidades custam R$ 3.500,00. A cada dois meses os menus precisam ser renovados. Vale a pena.
Além do menu em inglês, o restaurante de comida mineira Dona Lucinha oferece aos turistas a descrição de comidas e bebidas em francês e espanhol. Às vezes, durante a semana, 100% dos clientes são estrangeiros, diz a proprietária da casa, Elza Nunes. Eles se sentem mais confortáveis sabendo detalhes do que vão comer. Ela acredita que os cardápios bilíngues sejam uma demonstração de respeito aos turistas, que acabam voltando ao restaurante mais de uma vez na semana.
O garçom Antônio José Araújo Lopes, que fala francês e espanhol, surpreende os clientes com seu sotaque. Por isso, já passou por situações divertidas. Num fim de noite deu aula de geografia do Brasil para um casal de sul-africanos e fez amizade com um grupo de franceses, que o convidou para ir ao seu país. Para ele, os turistas encontram um pouco de segurança quando alguém fala a língua deles.


