São Paulo, 28 (AE) - O título - ou seria posto? - de anjo da guarda foi proposto por Moacyr Luz e Aldir Blanc, no samba O Anjo da Velha Guarda. É narrado, o samba, na primeira pessoa. O homenageado, tão tímido quanto modesto (mas, com certeza, sabe-se merecedor da homenagem), jamais o cantará. "O terno branco parece prata", comeÔam os versos, "e a fita no peito diz que eu sou daqueles que vão pra Maracangalha rever Anália: eu vou. "
Não existe, naturalmente, a peregrinaÔão atÚ a Maracangalha mítica de Dorival Caymmi - o samba nasceu lá na Bahia, como nos lembrava Vinícius de Morais, mas mudou-se para o Rio Janeiro, onde nasceu Zeca Pagodinho, e nele ganhou novo formato. Existem, no entanto, os muitos palcos, Brasil afora, nos quais o guardião faz sua pregaÔão de bom humor e beleza.
Neste fim de semana, Zeca estará em dois palcos paulistanos. De amanhã (29) a domingo, no Tom Brasil, como figura central do projeto Samba no Tom, tendo como companhia os compositores e cantores Arlindo Cruz e Sombrinha, titulares do fundo de quintal (e do grupo Fundo de Quintal) em que Zeca comeÔou a mostrar sua arte, ainda amador, mais a cantora maranhense Alcione e seu conterrÍneo, valor novo, Zeca Baleiro (no novo disco de Baleiro, a ser lanÔado em breve, Pagodinho faz uma participaÔão).
Na madrugada deste sábado (30) para domingo - o horário previsto Ú o das 3h30 -, Zeca estará no Sesc PompÚia, como uma das atraÔÊes do projeto Rio!, que, durante todo o fim de semana, homenageará o Rio de Janeiro - seus músicos e sua música, sua gente, sua paisagem.
O disco mais recente de Zeca Pagodinho foi lanÔado em novembro, um trabalho ainda mais radicalmente voltado para as raízes do samba carioca do que os anteriores - que já eram discos radicais. O CD Ú dedicado a Heitor dos Prazeres, patriarca do samba, cujo centenário se comemorou no ano passado.
Mesma linhagem - Para lembrar: Heitor dos Prazeres, autor do samba seminal Gosto Que me Enrosco (de 1927, em que Sinhô aparece numa discutida parceria) e da marchinha Pierrô Apaixonado (de 1936, parceria, essa de fato, com Noel Rosa), era marceneiro, como o pai (mas o pai era tambÚm clarinetista e ritmista da banda da Polícia Militar), comeÔou a trabalhar cedo - gente pobre ainda hoje abandona os estudos para trabalhar -, foi preso por vadiagem (quando tinha 13 anos), seguiu a vida entre a PraÔa 11 dos negros chorÊes e sambistas do centro do Rio e o terreiro de Tia Ciata, onde, diz a histÃria, ganhou forma o samba carioca.
Mais tarde, Heitor dos Prazeres fundaria a escola de samba De Mim NinguÚm se Lembra e ajudaria na fundaÔão de outras, como a Mangueira e a Portela. Enquanto isso, suas músicas eram gravadas sob assinatura de outros autores - uma histÃria nada incomum. Nos fim dos anos 30, Heitor dos Prazeres comeÔou a pintar, amadoristicamente - ele achava -, retratando as gentes do samba.
Personagem emblemático, Heitor dos Prazeres não recebeu tantas homenagens quanto mereceria. Mas Zeca gravou dele A Tristeza me Persegue, uma parceria com João da Gente, samba definidor de linguagem, lanÔado em 1927. Assim, quando reverencia um dos pilares do gênero musical que pratica, Zeca está puxando a homenagem prestada a si por Moacyr Luz e Aldir Blanc e indicando o anjo fundador - um deles - da linhagem.
Porque as histÃrias, passados tantos anos, não são muito diferentes. Mudou um pouco o cenário - os sambistas do início do sÚculo moravam no centro carioca e hoje se agrupam nos subúrbios que evoluem às margens dos trilhos da Central do Brasil (o umbigo nacional eleito por Walter Salles para seu filme premiado).
Zeca, nascido JessÚ Gomes da Silva Filho, de 39 anos, já havia feito todo tipo de biscate para bancar a vida, antes de comeÔar a ganhar dinheiro com música. ComeÔou a freqüentar, nos anos 70, as rodas de samba de fundo de quintal do Cacique de Ramos: reuniÊes informais, de sambistas e para sambistas, em que cada um mostrava um pouco de sua arte.
O novato apareceu como autor de bons partidos e como versador de muitos mÚritos, chamando a atenÔão dos titulares - entre eles, Arlindo Cruz e Sombrinha, compositores, cantores e instrumentistas que integravam a primeira formaÔão do grupo Fundo de Quintal e, há três anos, resolveram partir para carreira em separado, como dupla.
A cantora Beth Carvalho, assídua das reuniÊes, já lanÔara para o sucesso as músicas de Arlindo Cruz, Sombra, Sombrinha (são tio e sobrinho, santistas de nascimento), Marquinhos PQD, Beto Sem BraÔo e outros bambas do pedaÔo. Ouviu de Zeca o Jilà com Pimenta (parceria com Arlindo Cruz), que acabou gravando em 1983 ("Quando um rico fica alegre/ Mais um pobre se arrebenta").
Sucesso - Em pouco tempo, pela gravadora RGE, Zeca faria seu primeiro disco - e passaria a ocupar o topo das paradas com músicas alegres, maliciosas, irônicas, críticas como Judia de Mim, SPC, Casal sem Vergonha, Quando Eu Contar (Iaiá). Crônicas amorosas e comentários sociais sobre um certo tipo de gente que não ocupa lugar de destaque em novelas de televisão, não posa para comerciais, não parece fazer muito mais do que engordar estatísticas.
Eleger essa gente, sua gente, como personagem principal foi, por certo, um dos motivos do sucesso popular de Zeca Pagodinho. O compositor mostrou-se, desde o primeiro momento, um artista de exceÔão. ComeÔou carreira vendendo centenas de milhares de discos, batendo recordes - Ú uma das maiores, digamos, bilheterias da histÃria do samba, sem que para isso tenha contado com lobbies, pressÊes econômicas, campanhas publicitárias.
No fim dos anos 80, Zeca Pagodinho entrou em baixa. Entraram em baixa, com ele, todos os verdadeiros sambistas, que foram sendo substituídos, por forÔa de lobbies, pressÊes econômicas, campanhas publicitárias, pelos assim chamados pagodeiros modernos - os grupos que "sambam" coreografias, vestem uniformes e cantam bobagens de pouca inteligência, ritmo duro, nenhuma beleza.
Para efeito mercadolÃgico, a música desses grupos (Negritude Jr., SÃ pra Contrariar, Molejo, Morenos, SÃ Preto sem Preconceito e outros que já desapareceram e outros que surgirão e desaparecerão) foi batizada de pagode. Maldosa ironia. AtÚ porque, para início de conversa, pagode não Ú gênero musical, mas essa Ú uma outra conversa.
A questão Ú que chegou a haver uma confusão entre "pagode" - o dos outros - e Pagodinho - o verdadeiro. A forÔa da boa música levou algum tempo, mas separou-se do joio, finalmente. Duas figuras são fundamentais para que a separaÔão se tenha dado: a cantora Beth Carvalho e o cantor e compositor Zeca Pagodinho, nosso personagem.
Foram os dois (o grupo Fundo de Quintal tambÚm firmou posiÔão e houve outros baluartes, mas em linhas gerais a peteca pulou sem cair no chão da mão de Zeca para a de Beth) que se mantiveram na linha e garantiram os caminhos abertos - não desimpedidos, mas pelo menos trilháveis - para que, finda a tempestade, outros viessem à luz. Se Luiz Carlos da Vila, DÚlcio Carvalho, Wilson das Neves, a dupla Arlindo Cruz e Sombrinha e tantos outros vêm conseguindo reconquistar para o samba seu lugar de direito, devem-no a Beth e a Zeca.
A histÃria do samba tem tido personagens herÃicos assim, mas o momento em que Zeca Pagodinho impôs sua linguagem deve ter sido o mais difícil de todos. Ele canta a evoluÔão de uma tradiÔão centenária, na contramão das teorias globalizantes (o Terceiro Mundo está sempre na contramão dessas teorias). A música de Zeca Pagondinho cultua e comenta hábitos populares que a cultura prefere fingir que não percebe, batuca ritmos com os quais os sintetizadores não atinam. Aliás, o bom samba, como os anjos, não bate no chão, não pousa: adeja.

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