São Paulo, 23 (AE) - Depois de ganhar vários prêmios importantes no Festival de Brasília (direção, fotografia e ator)
"São Jerônimo", de Júlio Bressane, finalmente chega a São Paulo. Estréia sábado (25), depois de ter sido exibido em algumas sessões da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, durante outubro. Na apresentação, Bressane costuma pedir um pouco de paciência à platéia. Diz que o filme é um tanto "rugoso", o que não deixa de ser verdade.
Não adianta ir ao cinema preparado para assistir a uma cinebiografia de santo. "São Jerônimo" é outra coisa. Bressane
aparentemente, debruçou-se sobre a vida do santo intelectual, responsável pela tradução dos textos sagrados para o latim, a Vulgata, por outros motivos. Jerônimo é um dado de cultura. Unificou a Europa do tempo dele, século 4.º depois de Cristo, porque conseguiu reordenar textos dispersos em várias línguas numa sólida obra comum, acessível, em tese, a todos. Foi um herói intelectual.
E também um asceta. Preparando-se para o trabalho, retirou-se para o deserto. Jejuou, meditou, leu. Realizou um trabalho de "polimento da alma", como dizem os entendidos, em contato com a aspereza do deserto. Bressane vai atrás mais desse estado de ânimo do que da "historinha" do santo. É um filme que tenta captar a essência mesma de uma busca espiritual. Isso não quer dizer que o diretor seja espiritualista, nem que esteja empenhado numa tardia démarche religiosa. É que, no mundo laico dele, Bressane parece ter ficado sensibilizado pelo esforço de depuração, pela busca de rigor que a vida e a obra de Jerônimo representam de maneira eminente.
Jerônimo, para o artista do fim do século 20, é mais um signo do que um personagem a ser resgatado no tempo. Trata-se de uma operação comum para quem conhece o trabalho de Bressane. A superposição de signos, como se dá, por exemplo, em "O Mandarim", faz com que a atualidade de Mário Reis se revele nas figuras contemporâneas da música, que lhe dão significado. Por isso, Jerônimo não é uma peça de museu. Pelo contrário, é uma figura necessária do rigor contra o pano de fundo de uma contemporaneidade tão dispersiva.
Essa relação não se faz no discurso e sim no estilo de filmagem. Bressane é amparado por uma fotografia deslumbrante e, ao mesmo tempo, sóbria, de José Tadeu Ribeiro. Enquadra o deserto como se quisesse penetrar naquele mundo mineral, o universo dos elementos mínimos, dos quais se retira o essencial para viver, mas nada além disso. Não há desperdício, não há sobra nem falta, como dizia Machado. Trata-se de uma espiritualidade buscada com toda a secura deste mundo.
Jerônimo é universal porque signo do rigor e do espírito unificador da cultura. Por isso, é também brasileiro, como Bressane assinala. Primeiro, pelo uso de um trecho do documentário "A Cabra na Região Semi-árida", de Rucker Vieira. Segundo, por toda a ambientação nordestina subsequente e pelo uso de um magnífico ator paraibano, Everaldo Pontes. Finalmente, pela epifania que é o uso da música Açum Preto no fim. Uma iluminação.

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