Com licença do poeta português Fernando Pessoa, o Tejo não é mais bonito do que o São Francisco. Genuinamente nacional, o único inteiramente made in Brazil, o Rio São Francisco é digno de ser cantado em verso e prosa. Aliás, o São Francisco já foi cantado, e figura até mesmo nas folclóricas historietas da literatura de cordel, outra obra do gênio criador sertanejo.
Nascendo na Serra da Canastra, nas Minas Gerais, a mais de mil metros de altitude, o Velho Chico, como é chamado carinhosamente pelos nordestinos, separa o Estado da Bahia de Pernambuco. Nesse ponto, a cidade baiana de Juazeiro é ligada por uma ponte à Petrolina, cidade pernambucana.
Em seu trajeto, o rio corre entre as divisas dos Estados de Alagoas e Sergipe, onde deságua no Oceano Atlântico, depois de perfazer um total de 3.100 quilômetros. Rio de planalto, entrecortado por cachoeiras e corredeiras, atravessa o sertão semi-árido e recebe em seu leito inúmeros rios temporários. No ponto onde o rio é navegável por cerca de 1.300 quilômetros, criou-se uma rica cultura tipicamente regional, ligada à presença do Velho Chico.
Para as populações ribeirinhas, o rio é fonte de abastecimento de água de beber e de lavar. As lavadeiras, que batem a roupa nas pedras, entoam canções centenárias, de autores anônimos, mas que todos sabem de cor.
Via de comunicação para os nordestinos, que viajam nas famosas gaiolas, às margens do rio, figuram dois centros religiosos de fervorosa importância para os devotos. Nas cidades de Barra e Bom Jesus da Lapa, na Bahia, para onde acorrem milhares de peregrinos anualmente, o rio banha as rochas onde estão os santuários, guardando ex-votos compungidos. Em Bom Jesus da Lapa, os pescadores vendem os peixes, devidamente salgados e fincados em pedaços de pau: ‘‘Olha o surubim!’’, repetem exaustivamente os pescadores, em sua fala malemolente.

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