"Santo Forte" vence Festival de Brasília; festa de premiação foi caótica
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quarta-feira, 01 de dezembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Brasília, 01 (AE) - Uma inacreditável comédia de erros jogou no chão a cerimônia de entrega dos prêmios do 32.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que consagrou como grande vencedor o documentário "Santo Forte", de Eduardo Coutinho. Durante a premiação, "comandada" por um ator e uma atriz da cidade, Dimer Monteiro e Adriana Nunes, houve de tudo. Inverteu-se prêmios, confundiu-se ator com diretor, desrespeitou-se a ordem recomendada pelo júri. Jogou-se fora as justificações para determinadas premiações, escritas pelo corpo de jurados para dar eixo conceitual à cerimônia e determinadas categorias, como roteiro, foram esquecidas. Enfim, o caos se instalou na bonita sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
Tudo parece ter tido início com a malfadada idéia de inovar a qualquer custo. A dupla de apresentadores vestiu-se com charme hollywoodiano, ou seja, brega. O que se via no palco era uma tosca tentativa de imitação da entrega do Oscar, em que categorias são agrupadas para formar blocos destinados a manter o suspense até o fim. Como toda imitação, essa também não deu certo. Primeiro, porque o júri ficou indignado com a subversão da ordem proposta pelo diretor do espetáculo, Néio Lúcio, ator e diretor de teatro brasiliense. Segundo, porque a dupla de apresentadores se esmerava em acumular trapalhadas sobre trapalhadas em um roteiro já em si confuso. A idéia, se a palavra for essa, era fazer um espetáculo bem-humorado, cheio de gracinhas e agrados para o público.
Mas este acabou não se sensibilizando. Com a aparentemente inesgotável sucessão de trapalhadas, a indignação foi subindo na platéia, que passou a vaiar. O clima foi ficando ruim e piorou quando um dos membros do júri, o cineasta Cláudio MacDowell, subiu ao palco para tentar botar ordem na casa. Foi ironizado e depois hostilizado pelos apresentadores. Enquanto isso, as pessoas presentes a um lotadíssimo Teatro Nacional (1.300 lugares) vaiavam e trocavam insultos entre si. Com os ânimos acirrados, a secretária de Cultura do Distrito Federal, Luiza Dornas, resolveu interromper a cerimônia, que a essa altura já tinha se transformado em espetáculo circense, para tentar corrigir os erros. Mas àquela altura do campeonato não havia mais como consertar fosse lá o que fosse e, quando a entrega de prêmios foi retomada, a bagunça voltou a imperar. Foi uma das mais grotescas festas de premiação jamais vistas em um festival de cinema.
Cenas de circo - Com os nervos em transe, e excitados pela situação, cineastas protagonizaram cenas lamentáveis. Um tentou desanuviar o ambiente e se pôs a fazer humor (arte que, no Brasil, está sempre em mãos de amadores) quando subiu para pegar um Candango, o troféu do festival, atribuído a seu filme. Não fez senão adicionar caos ao caos. Um curta-metragista, ignorado na premiação, jurava que iria bater no júri, que teria levado a perseguição a seu filme ao limite do intolerável.
Outro, insatisfeito com prêmios que considerou de consolação, jogou no lixo suas estatuetas, para deleite dos fotógrafos que acompanhavam a cena e a registraram. Enfim, um espetáculo nada edificante. No fim, organizadoras do evento choravam lágrimas de esguicho e autoridades da área cultural diziam-se preocupadas "com o que a imprensa iria escrever".
Justiça - Quando toda essa palhaçada for esquecida ou entrar para o anedotário nacional, ficará um mérito inegável para esta 32.ª edição do Festival de Brasília: o de ter feito justiça a Eduardo Coutinho, um dos grandes cineastas do País. "Santo Forte" acumulou os troféus de melhor filme, roteiro, montagem e prêmio da crítica, um recorte justo do júri para esse trabalho que abre uma janela para o mundo místico e social de uma comunidade pobre da zona sul carioca. Um trabalho de grande impacto, sensibilidade e inteligência. Contente, depois da premiação, Coutinho disse que não tinha feito "um filme contra o mercado, mas certamente não fora pautado pelo mercado". Sabe que fez uma obra especial, difícil, mas que pode - e deve - encontrar o seu público.
Como o antecipado, os prêmios principais deveriam ficar mesmo entre "Santo Forte" e "São Jerônimo", isso se o júri tivesse juízo. Teve. "São Jerônimo", longa-metragem denso e reflexivo sobre o criador da "Vulgata", o texto latino das Sagradas Escrituras, ganhou três estatuetas, direção (Julio Bressane), ator (Everaldo Pontes) e fotografia (José Tadeu Ribeiro). Como também se previa,"Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira, não deveria sair de mãos abanando. Levou o prêmio especial do júri (por "excelência da realização", na interpretação dos jurados), trilha sonora e direção de arte. Não são de jogar fora.
A estutueta de interpretação feminina era pule de dez: Fernanda Torres está realmente brilhante no duplo papel que vive em "Gêmeas", de seu marido Andrucha Waddington, que retornou a Brasília para também receber o prêmio do júri popular. Uma das poucas ilhas de elegância num mar de grossura, Andrucha dizia-se realmente feliz com a vitória de um mestre como Eduardo Coutinho. Mas Andrucha sai do festival com dois belos prêmios. Outros cineastas, como Flávio Cândido, de "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", partiram de Brasília de mãos abanando e nem por isso perderam a classe. Cândido apenas discordava de algumas premiações no âmbito do curta-metragem, categoria na qual não concorreu. Elegância é tudo e deveria ser virtude indispensável nesta selva em que se transformou o mundo.
O novo formato do festival, com 12 longas ao invés de 6, mostrou suas limitações. Transformou o evento em uma corrida de obstáculos, cansativa nos primeiros dias, extenuante na reta final. Esse cansaço, o excesso de gente concorrendo, a competição acirrada por um prêmio alto em dinheiro (R$ 50 mil para melhor filme) são fatores que podem ter contribuído para transformar o que deveria ser congraçamento em batalha campal. Mas claro, ninguém poderia prever que a criatividade dos artistas locais, responsáveis pela direção da cerimônia, se mostrasse tão aguçada. Em todo caso, nos últimos dias, as pessoas andavam nervosas, agressivas, maledicentes. Não é o que se poderia desejar como clima perfeito para um evento de conteúdo cultural. Talvez uma curadoria mais rigorosa na seleção e mais competência e menos gracinhas no momento de distribuir os prêmios pudessem fazer parte de uma receita para o primeiro Festival de Brasília dos anos 2000.


