"Santo Forte" emerge como favorito no Festival de Gramado
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quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio Enviado especial 
Gramado, RS, 12 (AE) - A julgar pela reação do público durante e depois da exibição de "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, o Festival de Gramado deste ano já tem sério candidato ao troféu principal. O documentário foi aplaudido durante a projeção e, no fim, seguiu-se a mais consistente salva de palmas desde o começo do festival. O segundo longa-metragem da noite, "Os Amantes do Círculo Polar", de Julio Medem, prejudicado como outros pelo horário do seu início, também foi bem recebido. Pelo menos metade da sala ficou para vê-lo e sentiu-se recompensada pelo esforço de seguir o intricado caso de amor entre Otto e Ana descrito por Medem. Os curtas - "Ano Novo", de Marcos Fábio Katudian, "Deus É Pai", de Allan Sieber, e "Copacabana", de Flávio Frederico - também não decepcionaram. Um entre eles levantou a galera: a irreverente animação "Deus É Pai", que mostra o acerto de contas entre o Criador e seu filho
Jesus Cristo, diante de uma compreensiva terapeuta familiar. Muito bom mesmo.
Mas, depois da sessão, não se falava em outra coisa senão em "Santo Forte". Para o produtor Luiz Carlos Barreto, que chegou à serra gaúcha para receber homenagem, com sua mulher Lucy, o filme de Coutinho deveria ser programa obrigatório em todas as escolas do País. Disse que era uma aula de cinema e de sociologia. Não há como discordar. Sempre se espera o melhor de Coutinho. Afinal, ele é um dos grandes cineastas do País e certamente o documentarista mais importante. É dele o antológico "Cabra Marcado para Morrer", que acompanha uma personagem em duas etapas de sua vida, um fio de história cortado pela ditadura e reatado pela arte do cineasta. São dele também os excelentes "O Fio da Memória", sobre a condição dos negros depois de mais de cem anos de abolição da escravatura, e "Boca do Lixo", duro estudo sobre o cotidiano de pessoas que sobrevivem dos lixões das grandes cidades.
Como se vê, Coutinho costuma trabalhar no registro do filme de empenho social. Por isso havia muita curiosidade em saber como se saíra neste trabalho sobre a religiosidade popular. "Santo Forte" fecha seu ângulo sobre uma única comunidade no Rio de Janeiro, a favela Vila Parque da Cidade, situada na zona sul. O filme abre com o registro da passagem do papa pelo Rio, em outubro de 1997. Vê-se a multidão que acompanha a missa rezada por João Paulo II no Aterro do Flamengo.
Depois, Coutinho e sua equipe sobem à favela em busca dos seus personagens. A conversa é sempre a mesma. O diretor quer saber das pessoas como elas vivem sua experiência religiosa. Há depoimentos de todos os tipos. A moça contando que foi salva pela umbanda depois de anos de vida sem sentido; a dançarina de cabaré, que explica suas devoções; a mulher idosa, que acredita ter sido rainha em vidas anteriores; o homem que explica como sua mãe, morta, voltou uma noite para falar com ele e mostrar-lhe o caminho certo, etc.
Coutinho revela como a crença na intervenção divina orienta o cotidiano das pessoas, católicos, umbandistas, adeptos do candomblé ou evangélicos. A religiosidade, sabe-se, está profundamente enraizada no povo humilde brasileiro. E essa crença no divino se expressa de maneira sincrética. O brasileiro é um bricoleur, aquele que constrói sua obra, quer dizer, sua vida, a partir de fragmentos dispersos, que ordena com criatividade. Por isso não há incompatibilidade entre a missa no domingo e o terreiro de canbomblé nos outros dias da semana. Entre a promessa a Nossa Senhora e o despacho na encruzilhada. Santos e orixás convivem muito bem.
Ao debruçar-se sobre a religião, Coutinho fez, mais uma vez, um filme político. Não há nenhum didatismo na maneira como esse vínculo entre uma esfera e outra é passado. Mas é impossível escapar ao espectador a constatação de que lá, onde o social falha e deixa as pessos desamparadas, a crença preenche o espaço. E ocupa-o porque o espaço da religião fica entre o temor (da morte, mas também da insegurança) e a esperança. É um espaço íntimo das pessoas. O engenho e arte de Coutinho é visitar essa área de privacidade como convidado muito especial, carinhoso, respeitoso com personagens que acabam por abrir-lhe a alma. "Santo Forte" é, antes de tudo, um comovente estudo sobre o desamparo do povo brasileiro.
Caso de amor - No registro de outro intimismo, desta vez amoroso, o público de Gramado pôde acompanhar um vigoroso caso de amor em épocas de vida distintas contado por Julio Medem em seu "Os Amantes do Círculo Polar". Ana e Otto amam-se desde a infância. O acaso os leva a ser meio-irmãos, quando seus pais se casam entre si. A casualidade também os leva para longe um do outro e os reúne para um improvável encontro sobre o Círculo Polar. Um singelo conto amoroso, não fosse ele narrado de modo fragmentado, com vaivéns constatens no tempo e construção rigorosa das imagens. Medem tem sido saudado como cineasta inventivo, porém às vezes frio porque intelectualizado demais. Em "Os Amantes" ele alcança o equilíbrio desejado com um cinema feito de inteligência, mas também de paixão.
Amanhã Gramado entra em sua última noite da mostra competitiva, com "Amaneció de Golpe", de Carlos Azpúrua, da Venezuela, e "La Vida Es Silbar", de Fernando Perez, de Cuba. Sábado, a premiação será precedida pela exibição, fora de concurso, de "Mauá, o Imperador e o Rei", o novo épico de Sérgio Rezende O corpo de jurados deverá trabalhar duro para ficar à altura de um dos festivais mais equilibrados dos últimos anos.
Será difícil escolher entre títulos tão bons quanto "Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos", de Marcelo Masagão, "Santo Forte" ou "La Vida Es Silbar". O troféu principal deverá ficar entre eles, salvo surpresa. Entre os curtas-metragens, De Janela Pro Cinema, de Quiá Rodrigues, é tido como favorito. Mas não se deve esquecer do belíssimo "A Pessoa É Para o que Nasce", de Roberto Berliner.


