'Santo Forte' articula a fé com o plano social
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de outubro de 1999
por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 26 (AE) - "Santo Forte", novo documentário de Eduardo Coutinho, tem pré-estréia amanhã, às 20 horas, no Itaú Cultural. Depois da exibição haverá debate com o diretor. A programação de pré-lançamento prolonga-se até sábado, com exibição do documentário na quinta e na sexta, sempre seguida de debate, e projeção de outras obras do diretor, como o clássico "Cabra Marcado para Morrer", previsto para sábado às 18 horas.
Dificilmente, no cinema brasileiro contemporâneo, um documentário tem o poder de impacto de Santo Forte. Na sua origem, no entanto, ele parece apenas curioso. Afinal, sempre se espera de Coutinho algum tipo de filme diretamente político. E, na tradição dos anos 60, da qual ele de alguma forma faz parte, política e religião funcionam como termos antagônicos, rivais. Aquela antiga história do ópio do povo, etc. Muita coisa mudou, mas seria ingenuidade esperar algum tipo de singela conversão à fé por parte do diretor, ou um elogio acrítico às atitudes religiosas ou qualquer coisa do tipo. De fato, na base de qualquer tema examinado por Coutinho estará a análise social, mesmo que ela não esteja na superfície e se deixe ver com a vista desarmada, como parece ser o caso de "Santo Forte".
O documentário foi rodado inteiramente na Favela Vila Parque da Cidade, na Gávea, durante duas semanas. Coutinho ouviu os relatos de 15 moradores, reduzidos a 10 na versão final. O tema é sempre o mesmo: como as pessoas lidam com a fé. A busca pela experiência religiosa de cada um poderia conduzir à dimensão a mais individual possível, algo da ordem da subjetividade, que, por definição, realiza pouca troca, ou troca moderada, com o ambiente social. Não é o que se verifica. A cada vez que o entrevistador se aprofunda na busca do campo místico do entrevistado, abre uma janela importante para a compreensão social do País. Por exemplo
uma mulher idosa tem certeza de que foi rainha em outra encarnação. O motivo? Seus gostos são refinados, adora ouvir Beethoven. Ela se pergunta: como é possível uma analfabeta como ela ter sensibilidade para música mais sofisticada? A única explicação encontrada é a reencarnação.
Ou seja, lá onde a dimensão social falha e imprime o preconceito ("Gente pobre é bruta, não pode gostar de arte refinada") a ordem mística fornece a explicação. Fornece também consolo, apaziguamento, sentido para a vida. Sem nenhum ranço mecanicista, Coutinho desvela como se dá essa articulação do plano da fé com o social mais que palpável.
Essa radiografia pode ser feita porque Eduardo Coutinho é um entrevistador prodigioso. Sabe entrar na intimidade das pessoas sem que isso pareça uma invasão. Tem mentalidade séria quanto à utilização das imagens e as pessoas se dão conta muito bem de que estão lidando com alguém eticamente orientado. É o que faz a diferença, mais que uma técnica de filmagem calcada em vasta experiência.


