DivulgaçãoVal Kilmer em ‘‘O Santo’’: personagem criado por Leslie Charteris volta ao cinema sob a direção de Philip NoyceOs leitores menos fiéis do popular escritor Leslie Charteris estão às voltas com um enigma. Diante de ‘‘O Santo’’(veja a programação de cinema na página 5), a indagação que se faz é de onde foi adaptado o roteiro para o filme de Philip Noyce. Já os mais devotos cultores do personagem descobriram logo de saída que a história não existia previamente, e que Charteris nunca a escreveu. Logo, o filme é somente uma dessas licenças cinematográficas, jamais literária. Noyce e seus dois roteiristas queriam trazer Simon Templar ou o Santo para os anos 90, mas antes queriam contar o que o próprio criador do personagem nunca tinha imaginado: de que maneira e a partir de que momento o ladrão e mestre dos disfarces Templar começa a agir simultaneamente a favor da Justiça quando lei e ordem se mostram impotentes. Assim, por conta e risco, o filme localiza a infância de Simon Templar num orfanato do Oriente, onde ele aprende toda sorte de truques que vai usar na rocambolesca vida adulta. Desta forma, segundo o entendimento ‘‘psicológico’’ de Noyce, estaria justificado o comportamento de moral dúbia de ‘‘O Santo’’: ‘‘assim como fez na infância, o adulto Templar foge da realidade se escondendo atrás de disfarces que nada mais são do que uma fuga, uma máscara que esconde o verdadeiro homem’’, na afirmação do próprio diretor. Tais justificativas seriam absolutamente desnecessárias, se adaptada qualquer uma das dezenas de boas histórias originais e mantido o personagem tal como foi concebido, um Robin Hood suave e sofisticado, santo e pecador, um sedutor cínico e justiceiro, no fundo um aventureiro de bom coração.
Kilmer na Rússia Criado há 70 anos, ‘‘O Santo’’ seduziu o cinema a partir de 1937. E tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, os atores que melhor traduziram o personagem foram Louis Hayward, Hugh Sinclair, George Sanders e Roger Moore, este com uma série televisiva de enorme sucesso entre 63 e 68. Mas é agora, mesmo sem um argumento original de Charteris, que ‘‘O Santo’’ parece ter encontrado sua alma gêmea. Misto de anjo e demônio, o ator Val Kilmer, 38 anos, traz para o personagem uma dualidade que parece talhada sob medida. No meio cinematográfico as opiniões se dividem. Psicologicamente perturbado para alguns (Joel Schumacher, que o dirigiu em ‘‘Batman’’), excelente profissional, ‘‘realmente brilhante, realmente dedicado’’ para outros (Tom Cruise, que trabalhou com ele em ‘‘Ases Indomáveis’’), Val Kilmer tem fama de complicado e causador de encrenca. O diretor John Frankenheimer, que o dirigiu recentemente em ‘‘A Ilha do Dr. Moreau’’, não deixa por menos: ‘‘Há duas coisas que jamais farei na minha vida. Uma é escalar o Everest. A outra é trabalhar novamente com Val Kilmer’’.
Para o bem ou para o mal, o ator trouxe ao personagem uma boa dose de pathos . Nesta aventura sem referencial literário a não ser unicamente o próprio Santo, a ação do filme se passa boa parte na Rússia de nossos dias. Ali, uma cientista (Elizabeth Shue, ‘‘Despedida em Las Vegas’’) vai ser assassinada porque descobriu que um bilionário quer coroar-se primeiro czar de um novo império russo. Sob os mais diversos disfarces, entra em cena O Santo, já formalmente balançado pelos encantos da bela cientista.
O australiano Philip Noyce adquiriu recente know how de ação em dois filmes bem razoáveis, ‘‘Jogos Patrióticos’’ e ‘‘Perigo Real e Imediato’’, mas bisbilhotou mal a vida sexual alheia em ‘‘Invasão de Privacidade’’.
Charteris e O Santo Em muitos pontos parecido com o ‘‘Arsene Lupin’’, de Maurice Leblanc, o personagem Simon Templar, ou ‘‘O Santo’’, é uma criação original de Leslie Charteris(1903-1993), um filho de pai chinês e mãe inglesa nascido em Cingapura mas considerado escritor norte-americano. Em mais de 50 romances, Charteris faz seu personagem viver aventuras policiais de intensa movimentação. Paralelamente e paradoxalmente ladrão e defensor da Justiça, O Santo é sempre simpático, agradável, irresistível com belas mulheres e implacável com os inimigos... desde que não sejam policiais, a quem ajuda quando em dificuldades. Aliás, um dos momentos de humor das narrativas fica por conta dos constantes atritos entre Templar e o inspetor Teal, que sonha em desmascará-lo.

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