"Santitos" abre laboratório de roteiros do Sundance
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de maio de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 24 (AE) - O 3.º Laboratório de Roteiros Sundance/RioFilme será aberto amanhã (25) às 20h30, no Sesc Vila Mariana, com a exibição do filme "Santitos", do diretor Alejandro Springall. A sessão terá a presença da roteirista de "Santitos", Maria Amparo Escandón. O filme foi programado porque é resultado do mesmo processo que será repetido agora pela terceira vez no Brasil. Seu roteiro foi selecionado, discutido por profissionais de ponta, reformulado e finalmente chegou ao celulóide. Sua qualidade é testemunha de como esse trabalho conjunto pode ser enriquecedor.
Para o laboratório brasileiro inscreveram-se 152 projetos de longa-metragem. Deles, dez foram selecionados para participar do laboratório: "Serras da Desordem" (Andrea Tonacci), "O Invasor" (Beto Brant, Marçal Aquino, Renato Ciasca), "Cidade de Deus" (Braulio Mantovani), "Redentor" (Cláudio Torres, Elena Soares, Fernanda Torres), "Meias Mentiras" (Eduardo Ulup), "àdiquê" (Gustavo Coelho), "À Sombra do Edifício" (Jorge Duran, Melanye Dimantas), "Olhos Azuis" (José Joffily), "A Trança" (Laine Luiz Milan) e "É hoje" (Rosani Madeira, Regina Soller, Rosangela Pitta, Jacqueline Vellego).
Os consultores brasileiros, que discutirão os projetos com os autores, são Bia Lessa, Eduardo Coutinho, Lúcia Murat, Marcos Berstein e Tisuka Yamasaki. Do exterior virão, além da mexicana Maria Amparo Escandón, o argentino Fernando Solanas e os norte-americanos Nelson George, Anthony Drazan, Alexander Payne. Todos com muita experiência no ramo.
O laboratório será feito de quarta a domingo no Sesc Bertioga, com os autores selecionados reunidos com os consultores em tempo integral. No domingo, de volta a São Paulo, os roteiristas falarão sobre a experiência, novamente no Sesc Vila Mariana. Será interessante ouvi-los. Alguns dos futuros filmes brasileiros sairão desses encontros.
"Santitos" - O longa-metragem "Santitos" teve seu roteiro desenvolvido num laboratório promovido no México, foi exibido no Sundance Festival deste ano e ganhou o prêmio do júri para o cinema latino-americano. O Sundance, instituto e festival criados por Robert Redford, apóia o desenvolvimento do cinema independente nos Estados Unidos e no mundo. Dá uma força àquele tipo de filme que destoa do padrão (em geral medíocre) do filme comercial.
Para dar dois exemplos domésticos: "Central do Brasil"
de Walter Salles, ganhou o prêmio de roteiro no Sundance, antes de virar o filme premiado que todos conhecem. "O Sertão das Memórias", do cearense José Araújo, levou há três anos o mesmo prêmio agora concedido a Santitos.
Trata-se de um trabalho profundamente enraizado na realidade latino-americana. Um filme de cor local, que é o que anda faltando na produção mundial. A trama tem toques de realismo mágico. Toques leves. A autora, Maria Amparo, fala de "realidade mágica" e não de realismo mágico. Em todo caso, a história é a de uma viúva jovem, Esperança Diaz (Dolores Heredia), que põe o pé na estrada para achar uma filha desaparecida.
A vizinhança afirma que a menina morreu. Assistiram à doença, presenciaram o enterro. A mãe aceita, até o momento em que julga ver o santo de sua devoção - são Judas Tadeu - num forno de fogão. A visão afirma que a menina está viva. E que seu dever de mãe é sair a campo para procurá-la. Esperança (que não tem esse nome por acaso) vai à luta, percorre parte do México, chega a Tijuana, atravessa a fronteira atrás da garota.
Muito do que se vê no filme parece periférico à história principal. Referem-se à realidade mexicana. Mas não à realidade, digamos, fotograficamente objetiva. Springall a impregna dessa mágica religiosidade, do clima abolerado, da sensualidade em tom vermelho, que constrói a percepção de mundo do povo humilde do México.
É assim que se decodifica uma realidade. Seguindo uma linha ficcional, mas prestando muita atenção ao que acontece em torno da história. Para voltar mais uma vez à comparação doméstica: essa hábil alternância da trama principal com o complexo pano de fundo local é, pelo menos em parte, responsável pelo sucesso de "Central do Brasil".


