Santa Evita
Eva Perón era uma demi-mondaine argentina. Sua boca, notaram Borges e Naipaul, representava o ideal portenho para o trabalho de sopro. Perón, que era pedófilo, provavelmente casou-se com ela para usufruir esse talento.
Eva se revelou um autêntico bom-bril, junto ao eleitorado feminino, inacessível ao macho argentino. Foi a Bonnie do Clyde de Perón. Os dois perturbaram a aristocracia argentina, perdida no tempo em que o país e o Uruguai vendiam 75% da carne consumida na Europa, no pré-guerra de 1914. A aristocracia, anglófila in extremis, não considerava sequer a existência do populacho. Perón deu um upgrade econômico a essa gente, mais pela concessão de direitos trabalhistas do que por melhoria de vida. Evita desembruteceu a vida da mulher do povo, dando-lhe assistência social. É uma das razões por que o culto de Santa Evita foi criado. As pessoas, em geral, são tão carentes que qualquer atenção lhes parece maná dos céus.
Os Perón queimaram a aura da aristocracia, apesar de, na tradição latino-americana, se servirem também dos cofres públicos. Poder na América Latina é, em geral, franquia para roubar. Eva teve leucemina e morreu, aos 33 anos. Perón, menininha a tiracolo, foi derrubado por militares não incluídos nas benesses do seu populismo. Os sindicatos poderosos que criou nunca se conformaram com a deposição de el jefe. Deram show de força sindical nunca vista em nossas paragens. Houve até luta armada de montoneros contra exército. Seu peronismo era um guarda-chuva de reivindicações não necessariamente ao gosto de Juan Perón.
Mortadela na tela
A semelhança entre Evita e Madonna-mortadela é nenhuma, exceto que as duas provocam irracional admiração de seus admiradores de QI substandard. Evita é gente. Pode ser desagradável como personalidade, mas enfrentou o patriarcado argentino, cujas armas são o chicote e o revólver. Madonna é criação das máquinas de propaganda de Hollywood. O musical de Lloyd Weber e Tim Rices, libretista, tem um certo viço. Principalmente no palco, dirigido por Harold Prince. Em cinema, deve estar tudo mastigado em nível alítero, berrado, afundado em música melodramática e sentimental. Melhor comprar o CD original, ainda a melhor performance, com Julie Covington como Evita.
Os ricos
A Neiman Marcus, loja de departamentos, a preferida dos texanos ricos e da gente de Hollywood, colocou à venda 50 conversíveis Jaguar. Custo por unidade, US$ 75 mil. Vendeu todos. A Hermés com a bolsa Kelly, homenagem a Grace, a US$ 4 mil e há lista de espera. O Patek Phillipe lançou um modelo preto a US$ 44,5 mil e foi-se todo. O varejo como um todo aumentou 11,9% nos EUA.
O New York Times noticiou tudo isso em primeira página. O que fascina os repórteres é que gente que ganha US$ 60 mil ao ano está gastando tudo, ao passo que o pessoal entre US$ 40 mil e US$ 59 mil diminuiu gastos em 4,7%. Não acredito. Há modas. Uma calça de flanela da Prada custa US$ 400 e tem três meses de espera. Uma viagem de US$ 38 mil, volta do mundo, foi toda embora com seis meses de adiantamento (mas pode-se pagar à prestação). A Tiffany lançou uma jóia de US$ 19 mil e não tem mãos a medir.
Gastar para quê?
Se se tem o dinheiro, por que não gastá-lo? Movimenta a economia, ao menos. Pode ser um objetivo medíocre, mas, quando um número único de pessoas, inigualado em nenhum país em nenhum período histórico, enriquece, sem ter tido experiência familiar desse bem-bom, é natural que se espalhe, 80% da economia dos EUA é consumo. Não há aqui um Chico Dornelles declarando que o país não será um empório, que permanecerá amarrado ao estatismo e ao corporativismo cascudos.
O espírito econômico americano, do homem que usa camisa de meia para usar a camisa alguns dias, sem lavá-la, que prefere lápis a caneta, por ser mais barato, deve sobreviver fora dos grandes centros urbanos em que a propaganda, a linguagem de Madison Avenue, se impregnou na alma de muita gente. Comprar, comprar, comprar. Mas para que economizar dinheiro? O futuro não é muito atraente, ou pelo menos perdeu seu caráter de risco, de aventura e de realização. Sem inimigos capazes de enfrentá-los, os EUA se voltam para uma penosa auto-introspecção, e uma preguiça oportunista e defensiva é sensível em todas as conversas. Gastar dinheiro é uma fuga, um desabafo. É fácil ganhar dinheiro. Easy comes, easy goes. E o vento leva ao menor sopro.





