Sangue jovem no circuito
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Assim como o título acima foi achado logo numa primeira tentativa e em manobra facilitada/banalizada pelo tema desta estréia e suas circunstâncias peculiares, seria da mesma forma extremamente fácil a leitura crítica de ''Crepúsculo'' (veja a programação de cinema na página 2) a partir de uma visão de mundo ''adulta'', de imediato inventariando a coletânea de lugares comuns que se acomodam sem cerimônia ao longo desta narrativa.
Baseado em fenômeno editorial homônimo, o filme, que nos EUA vem arrebatando as bilheterias e provocando idêntico efeito cascata no mercado exibidor internacional, não é dos mais originais. Isto é, sua capacidade de invenção, se não está ausente por completo, existe de maneira muito incipiente. É discretamente apreciável, sim, sua capacidade de reciclar todo um aluvião de materiais surgidos na literatura para adolescentes ao longo das últimas décadas - de resto tornados rotineiros pela frequência best seller, entre outros, de autoras como J.K. Rowling e sua saga feiticeira com Harry Potter, e agora esta Stephenie Meyer com seus vampiros light, com certeza dando início a nova franquia cinematográfica - seu segundo livro, ''Lua Nova'', já está em pré-produção.
O que se deve questionar é se tais debilidades pressupõem material suficiente para renegar o filme assim de pronto, e despachá-lo como algo totalmente prescindível. Vejamos as premissas contidas no argumento.
Aos 17 anos, Bella Swan (Kristen Stewart, boa promessa) se vê obrigada a mudar-se da casa da mãe, no cálido e seco Arizona, para morar com o pai no chuvoso e úmido estado de Washington. No início, na pequena cidade de Forks, a coisa não é fácil para a garota, sem conhecer ninguém além do pai e do quase mudo chefe de polícia local. Mas logo as coisas mudam. Entre os alunos da escola há um colega que se impressionou com Bella, e a garota também se ligou na misteriosa e complexa personalidade do rapaz.
Ele é o pálido Edward Cullen (Robert Pattinson), cujo charme é a parte visível de um segredo bem guardado. O garoto é vampiro, e tanto ele como sua família possuem aqueles tradicionais requisitos da espécie: imortalidade, força, rapidez, dons premonitórios, telepatia, etc. É claro que entre Bella e Edward há um profundo abismo. Mas a paixão que surge entre os dois será ainda maior.
Como se vê, o espectador não está diante de um filme de vampiros exatamente como reza o figurino. O que faz a diferença maior é que se trata de uma love story fervorosa e juvenil. Quem for ao cinema esperando metamorfoses radicais, cenas sangrentas, caninos gotejantes e gargantas laceradas vai com certeza se decepcionar. Claro que há vilões no pedaço, terror e ação com vampiros malvados numa subtrama assimilada sem problemas para o núcleo da trama, que é o amor impossível entre Bella e Edward.
E de volta aqui àquela questão ''adulta''. É óbvio que o público por quem o filme se interessa não é o de ''maior idade''. Este está descartado, e sem ofensa: descarte do ''bem''. O alvo a que se dirige ''Crepúsculo'' é aquela galera que há algum tempo começou a não querer muito mais a companhia dos pais, preferindo a cumplicidade da turma. Isto se nota sem maior dificuldade, e se este for o ponto de partida, como tudo o que está na tela leva a crer, então é preciso convir que o filme funciona com particular inteligência.
A diretora Catherine Hardwicke continua indagando sobre a vida e os sentimentos dos jovens, depois das bem sucedidas ''Aos Treze'' e ''Os Reis de Dogtown''. As garotas, particularmente, têm bons motivos para se soltar das páginas já devoradas com avidez e se amarrar agora nas imagens que tratam de temas a elas familiares, como a incapacidade de achar um lugar no mundo, a expectativa de encontrar e se entregar a um amor romântico e arrebatador (nada de novo sob o sol...), a falta de laços familiares mais estáveis numa época em que as fraturadas questões domésticas já não são mais escondidas nos armários ou debaixo do tapete.
Há, claro, deslavados planos românticos a questionar, bem como imagens idílicas e jogos de olhares, às vezes com irritantes e até ridículas afetações. Mas há qualidades paralelas, como a atmosfera do filme obtida principalmente através da bela fotografia. A garotada do elenco se sai bem da aventura, e o galã debutante Robert Pattinson mostra que é talento musical ao interpretar, ele mesmo ao piano, a musica ''Bella's Lullaby'', tema romântico composto por Carter Burwell, autor da trilha e imprescindível ''cúmplice'' nos filmes dos irmãos Cohen.


