SANGUE, GORDURA E LOUCURA
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Nos dias de hoje a energia elétrica é algo acessível. Para iluminar casas ou cidades, basta apertar um simples botão. Claro que para a geração de energia elétrica faz-se necessária a construção de enormes barragens, alagar grandes extensões de terra, dizimar ecossistemas, alterar o meio ambiente etc., mas a comodidade fala mais alto.
Nem sempre foi assim. No século 19, por exemplo, a iluminação das residências e cidades era feita através de lamparinas. O combustível mais utilizado era óleo de gordura de baleia. Claro que para a obtenção do óleo era necessário matar uma grande quantidade de baleias, milhares delas, mas o comércio falava mais alto.
Nessa época, principalmente na primeira metade do século 19, matar baleia não era uma tarefa fácil. Rentável, mas difícil e perigosa. As viagens em alto-mar duravam de dois a três anos. Os acidentes eram comuns, com homens lutando com simples arpões contra o maior mamífero do planeta.
Um desses acidentes, na verdade uma tragédia, ganhou notoriedade. Em 1820 o baleeiro Essex foi atacado por uma baleia, um cachalote macho enfurecido, no oceano Pacífico. Foi o primeiro registro de um ataque dessa natureza. De maneira intencional, o mamífero chocou-se duas vezes consecutivas com o navio abrindo um buraco no casco.
Após o naufrágio, os marinheiros se refugiaram em três pequenos botes e permaneceram três meses navegando de maneira precária, com o mínimo de alimento e água potável. O resultado foi uma tragédia inundada de loucura e morte. O canibalismo foi necessário para que alguns sobrevivessem.
Foi a partir desse episódio verídico que o escritor norte-americano Herman Melville (1819 - 1891) escreveu o clássico Moby Dick (Moby Dick or The Whale), publicado originalmente em 1851. Em seu romance, Melville não faz uso da história real completa ele termina a narrativa com o simbólico naufrágio do navio.
O relato completo do episódio está em No Coração do Mar, livro que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Escrito pelo historiador norte-americano Nathaniel Philbrick, a obra é fruto de uma ampla pesquisa. É baseado no relato dos sobreviventes da tragédia, principalmente dois textos, o do primeiro imediato Owen Chase e do camareiro Thomas Nickerson então com 14 anos de idade.
O relato de Owen Chase foi publicado em 1830 e era o único documento existente. Mas há vinte anos uma descoberta modificou os fatos. Foi encontrado um velho caderno com a narrativa de Thomas Nickerson, que ainda permanece inédito. Nathaniel Philbrick juntou as peças e criou um livro panorâmico, onde geografia, navegação, biologia, história, cultura, psicologia, aventura, e outros elementos constroem uma narrativa completa e sedutora. Algo difícil de ser encontro em obras do gênero.
O autor de No Coração do Mar deixa claro que o episódio que narra não é uma história de aventura: É uma tragédia, que constitui também uma das maiores histórias verídicas já contadas. Para Philbrick o que difere a trajetória dos tripulantes do Essex de outras famosos desafios como a de Ernest Shackleton na Antártida em 1815 é que estavam apenas trabalhando, tentando ganhar a vida quando uma catástrofe caiu sobre eles.
Com 20 pessoas a bordo, o baleeiro a velas Essex deixou a Ilha de Nantucket em agosto de 1820. Localizada na costa norte-americana do Atlântico Norte, a ilha era o maior pólo de extração de óleo de baleia da época. Ironicamente, a grande maioria dos trabalhadores da indústria da morte de baleias era Quakers (seita religiosa americana com uma rígida filosofia pacifista).
Descendo o Atlântico, a tripulação matou a primeira baleia da jornada em costa brasileira, próximo da região de Santa Catarina. Contornaram a América do Sul, no Cabo Horn e subiram o Pacífico pela costa do Chile e Peru, em direção a um recém descoberto curral de cachalotes. Uma região próxima da Polinésia, bem no meio do Oceano Pacífico. As baleias eram arpoadas por pequenos botes e arrastadas para o navio, onde os marinheiros retiravam a gordura, derretiam-na e armazenavam-na em barris. A carcaça do animal era jogada de volta ao mar.
No momento do naufrágio, os marinheiros conseguiram salvar do navio alguns barris de água potável, sacos de bolachas e poucos aparelhos de navegação. Quando a comida chegou ao fim, quem morria era devorado pelos companheiros. Três meses depois, quando foram resgatados, os quatro sobreviventes pareciam animais em pele e osso coberto de pústulas. Não se sabe como conseguiram sobreviver.
Em No Coração do Mar, Nathaniel Philbrick realiza um trabalho diferente ao desenvolvido por Melville em Moby Dick. Sua narrativa não atinge o clímax com o ataque da baleia e consequente naufrágio, mas sim na dolorosa sobrevivência dos tripulantes.
No Coração do Mar de Nathaniel Philbrick, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 374 páginas, R$ 31,50.


