''Quando o sujeito é uma besta e não é capaz de fazer nada, faz filhos.'' Essa irônica frase de Nelson Rodrigues pode ser manipulada em qualquer direção. Pode ser alterada para as mais variadas coisas. Pode ser alterada para algo como: ''Quando o sujeito é famoso, tem grana, e não sabe o que fazer, escreve um romance policial''.
Isso porque a cada dia que passa mais e mais personalidades acabam aventurando-se pela literatura. Parece existir até uma certa tendência dentro do mercado editorial brasileiro. Nos últimos anos, vários romances policiais assinados por nomes famosos, chegaram às livrarias. Nomes conhecidos pelas mais variadas atividades profissionais que optaram pela ficção buscando algum tipo de realização.
O mais novo nome a entrar nesse time é o jornalista, compositor e produtor musical carioca Nelson Motta. A Editora Objetiva acaba de publicar ''O Canto da Sereia'', primeira incursão de Motta, fã de carteirinha do gênero policial, pelos túneis da ficção. O romance recebeu a embalagem mercadológica de ''noir baiano''. Além de ser regado de axé-music, sensualidade, mães-de-santo, azeite-de- dendê e outras coisas que a baiana tem, também faz uso das novas vedetes do noir: o computador e a internet.
O narrador de ''O Canto da Sereia'' é Augustão, detetive particular que ganha a vida trabalhando como segurança e cronista policial. Frequentador assíduo de bares e terreiros de candomblé, é um típico habitante de Salvador. Após ver a cantora de axé-music, Sereia, musa do carnaval baiano, ser assassinada em cima de um trio elétrico, resolve investigar os motivos por conta própria.
Sereia era um dos grandes sucessos da temporada. Uma artista no auge do sucesso. Loira, bonita e gostosa, sua arte foi milimetricamente construída por três produtores com uma dose cavalar de marketing. Nesse sentido, Nelson Motta coloca sua experiência de produtor musical para revelar como se fabrica uma cantora para o sucesso rápido e extremamente lucrativo.
Amigo de Sereia, Augustão trabalha em duas frentes: subornando a polícia para conseguir informações sigilosa e fuçando a vida das pessoas que conviviam com a vítima. Todos são suspeitos do candidato a governador à vendedora de acarajé da esquina. Assim, uma série de casos amorosos saem das sombras, bem como do armário, tumultuando a verdade. As descobertas levam o detetive a acreditar que uma mãe-de-santo, por acaso sua grande protetora, está envolvida no caso. Aí cria-se um impasse ético e religioso, onde o silêncio do investigador é colocado em questão.
O mérito da trama desenvolvida por Motta está em levantar a suspeita de que o possível assassino é o próprio assassinado. Ou seja, a vítima talvez também seja o criminoso. Pode parecer até cópia de outras histórias policiais, mas o modo que Augustão chega à resolução do caso e o transcende torna o enredo sedutor. Claro que ''O Canto da Sereia'' foi escrito para o simples entretenimento, para diversão garantida. Isso fica claro pelo acúmulo de referências superficiais numa espécie de crônica baiana que o autor utiliza ao longo da história.
Serviço:
''O Canto da Sereia'' de Nelson Motta, Editora Objetiva, 260 páginas, R$ 32,90.

mockup