Sandra Cinto encanta Nova York com sua primeira exposição
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segunda-feira, 24 de maio de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 25 (AE) - Sandra Cinto inaugurou hoje sua primeira exposição em Nova York. Mas antes mesmo do vernissage, a artista conseguiu realizar um feito para poucos: todas as peças da instalação que expõe na Bonakdar Jancou Gallery foram reservadas ainda durante a montagem da mostra, obrigando os interessados em adquirir seus trabalhos a entrar numa fila de espera. Esse enorme sucesso comercial confirma seu lugar garantido entre os destaques da jovem arte contemporânea brasileira e ajuda a ampliar o espaço dedicado à arte nacional no exterior.
A carreira de Sandra vem evoluindo num ritmo acelerado desde 1997, quando a artista encantou o público paulistano com uma delicada instalação na Capela do Morumbi - que recriava uma nau de ponta-cabeça -, e ganhou um fôlego adicional com a Bienal de São Paulo. Foi lá que os proprietários da galeria nova-iorquina - uma das mais importantes da cidade e que representa poucos, mas destacados artistas, como Damien Hirst, Charles Long ou o brasileiro Ernesto Neto - a descobriram. O interesse por sua obra cresceu depois que eles visitaram a exposição que ela apresentava simultaneamente na Casa Triângulo e acabaram decidindo representá-la.
Nesse meio tempo, Sandra teve uma sala especial na feira espanhola Arco, realizou um trabalho especial para a exposição Território Expandido, uma homenagem aos indicados ao Prêmio Multicultural Estadão em cartaz no Sesc Pompéia, e continuou dando aulas em seu ateliê e na Faap. Esse ritmo alucinado não desagrada a artista, que tem uma relação bastante obsessiva com o trabalho. Ela confessa que não consegue parar por mais de uma semana. "O lugar em que me sinto melhor é trabalhando no ateliê
onde posso botar a mão na massa", diz ela, definindo-se um pouco como uma espécie de operária.
Além disso, essa sequência de trabalhos funciona como um mecanismo de retroalimentação e crescimento profissional. "No processo vou descobrindo coisas novas que quero fazer mais adiante", explica. Esse encadeamento lógico e sentimental entre as obras é uma das características mais marcantes de sua produção. É como se eles fossem dando frutos, amadurecendo, até surgir algo completamente novo no horizonte.
Essas filiações estão evidentes na complexa instalação "Felicidade Construída", que ocupa toda a área da Bonakdar Jancou Gallery, no Chelsea. Pensada especialmente para esse espaço, a obra mistura linguagens distintas, como escultura, desenho e fotografia. E mescla diferentes referências estéticas, combinando elementos barrocos, surreais ou conceituais, para lidar com uma questão que sempre fascinou a artista: a capacidade da arte de impulsionar o espectador para um outro lugar, para outra dimensão.
"Pensei esse espaço como uma metáfora de passagem para outro nível, da viagem que a arte proporciona quando tudo está péssimo; ao olhar um trabalho, ele renova você, traz a você uma luz", explica a artista, lembrando que desde quando pintava céus no início da carreira seu trabalho já carregava a idéia de transcendência. "Acho que a arte tem esse poder."
Sandra está pensando nessa exposição desde o ano passado
quando recebeu o convite. Mas as idéias começaram a amadurecer depois que foi conhecer o espaço, em fevereiro passado. "Para mim foi muito forte a experiência de estar em Nova York", conta a artista. Além disso, há no local um impressionante teto solar, que não poderia ser ignorado pela instalação e que dá uma idéia de abertura ao espaço da cidade.
Ela vinha de Madri, onde havia obtido grande sucesso com uma instalação cheia de referências à questão do deslocamento no espaço e da camuflagem. Toda pintada de cinza, a sala era povoada por objetos com forte carga simbólica - como malas, objetos de toalete ou uma coluna torneada tirada dos quadros de Renée Magritte - referência fundamental na obra de Sandra - pintados na mesma cor e sobre os quais artista desenhou com a paciência que lhe é característica.
"Na Arco pensei num espaço mais introspectivo, fechado, com coisas sóbrias que têm muito a ver com o período que a Europa está vivendo", explica. Já na instalação nova-iorquina ela também usa a questão da opressão provocada pela enorme verticalidade da cidade - "que nos faz sentir desse tamanhinho" -, mas também lida com a idéia de ascendência.
Em "Felicidade Construída", Sandra continua explorando a idéia de criar uma espécie de véu de uma única cor que recobre todas as coisas (talvez inspirada pela instalação "Desvio para o Vermelho", que Cildo Meireles mostrou na Bienal e que tanto a encantou). Mas desta vez o cinza foi substituído por um tom indescritível que se situa entre o verde e o amarelo, como que dando um corpo a essa ambivalência entre o ritmo da cidade e uma certa melancolia no ar.
Essa "cor luminosa, mas que ao mesmo tempo não é muito feliz", serve de pano de fundo para os trabalhos que povoam magicamente os três ambientes da galeria. Compondo uma espécie de lógica sequencial estão os desenhos que Sandra constrói com árvores escadas, estranhas luzes e candelabros, teias de aranha e outros elementos que parecem saídos de um conto de fadas e duendes.
Vê-se aí a influência de Regina Silveira, outra artista importante para a sua formação. Em Nova York, os desenhos de Sandra parecem procurar saídas, como as pegadas que Regina Silveira usou na fachada do Pavilhão da Bienal, no ano passado. Ela reconhece com prazer que sua obra se alimenta de referências encontradas na história da arte brasileira ou mundial.
Tudo começa com uma foto da sua mão tocando uma parede. "É como se fosse a primeira imagem de um álbum e só depois dela seguíssemos adiante", explica a artista. Essa narrativa que ela construiu em sua cabeça e costurou com os desenhos é composta por elementos distintos, que carregam metáforas e simbolismos particulares, mas que sempre remetem à capacidade ilusória da arte.
Há uma estante, cheia de objetos sedutores, como livros e porta-retratos, que também abriga uma maquete perfeita do espaço da galeria. A única diferença é que esse modelo reduzido mostra o espaço nu, sem marcas da exposição. Além de levar um pouco de seu processo de trabalho e do ateliê para a exposição, a maquete faz uma referência evidente à grandiloquência de Nova York e ironiza com a possibilidade de existirem outros mundos e dimensões . "Eu gostava muito daquela série Mundo dos Gigantes", conta.
Há também uma mesa de três pernas; uma escultura na forma de uma banheira (os desenhos, feitos com tinta automotiva para não desmancharem, são vistos através da água); um díptico de fotos, nas quais o desenho não é feito sobre o papel fotográfico, mas com uma ponta de diamante sobre a moldura de vidro; e um moinho de vento. Esta é a única peça que está intacta, sem as garatujas de Sandra. "Para mim ela remete a dom Quixote, que via outra coisa nos moinhos", conta a artista. "Ele também tem esse dom de transformar a energia em outra coisa, simboliza uma força que nos impulsiona para um outro lugar, assim como a arte."
Animada com sua exposição, Sandra vê essa guinada de sua carreira em direção ao exterior como um rito de passagem e uma interessante etapa, na qual não está sozinha. "Quando eu vou para fora, levo o melhor do marceneiro, o melhor do fotógrafo, o melhor do engenheiro...", lembra, dizendo preferir pensar a arte desse jeito, coletivamente. Ela conta que quando fez o contrato de exportação temporária necessário para remeter suas peças a Nova York (parte das obras saiu pronta daqui, mas a montagem final exigiu 12 dias de trabalho intenso no local) pensou: "Que legal, estamos exportando nossa cultura."


