Sambistas maltratados
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
É vasta, embora talvez não tanto quanto o assunto certamente mereceria, a bibliografia sobre samba, escolas de samba, carnaval. Nenhum livro que trate do assunto, porém, faz menção à forma violenta como os diretores de harmonia das escolas, no momento da montagem do desfile, tratam os integrantes das alas.
Esse trato aos gritos, tapas, empurrões e outras indelicadezas eventualmente mais graves parecem constituir tabu. Em seu mais novo livro, ''Sambeabá - O Samba Que não se Aprende na Escola'', Nei Lopes aborda o assunto, em nota à margem do texto principal intitulada ''Harmonia à Africana'': ''De uns tempos para cá, mormente nas escolas menos organizadas, os responsáveis pela harmonia são em geral tomados, durante os desfiles, por uma espécie de histeria punitiva, agindo com truculência sobre os desfilantes. Isso nos remete a um trecho do livro ''A Fazenda Africana'', de Izak Dinensen, que assim descreve um batuque no Quênia: ''Os monitores (...) eram rapazes da fazenda como outros, mas sua função era manter as regras cerimoniais da dança (....),''' - e, para isso, ''mostravam-se efetivamente armados, carregando um feixe de cajados, cuja extremidade era mantida incandescente (...)''.
Trata-se apenas de uma nota, mas faz toda a diferença. Mesmo sendo homem de samba e de escola de samba, Nei Lopes não enxerga a música e a festa sem examinar o contexto histórico de que decorrem, sendo considerado um dos mais importantes estudiosos modernos da cultura afro-brasileira, além de compositor, cantor, escritor, cronista, enciclopedista.
Ilustrado por Cássio Loredano, ''Sambeabá'' não é, na definição do autor, livro de tese ou história, nem ensaio, mas registro apaixonado de quem respira o samba desde sempre, sujeito a eventuais omissões e - admite - possíveis injustiças, involuntárias, se as houver. Mas, para o leitor, é um misto daquilo tudo que o autor diz que não é, e a condução passional não exclui a visão crítica.
Pondo o bonde em cima dos trilhos, Nei Lopes parte da hegemonia dos bantos na ''grande família etnolinguística'' à qual pertenciam os angolas, congos, cambindas, benguelas, moçambiques e os outros que vieram a ser escravos no Brasil, no Nordeste, nos ciclos do ouro e do café do Sudeste; do banto, defende Nei (contra outras teses, mencionadas), vem a palavra samba - cabriolar, brincar, também rejeitar, separar, caso se considere a tradição dos quiocos, dos bancongos angolanos, dos congueses.
Samba designou, primeiro, cada dança derivada do batuque africano, para só depois dar nome ao gênero musical (canção e dança) em compasso binário. Teve (e ainda sustenta) diferenças regionais - samba amarrado, samba batido, samba trançado, samba duro, samba-lenço, samba de roda - e temporais - sambalanço, samba de breque, samba-canção, samba-exaltação, samba-choro, samba enredo, samba sincopado etc.
Praticantes de algumas dessas variantes merecem destaque - Geraldo Pereira, com o samba sincopado, Moreira da Silva, com o de breque, os trios da bossa, com o samba-jazz, Clementina, Candeia, Padeirinho, Zeca Pagodinho e outros com o partido alto.
Da mesma forma, destacam-se as variações regionais do samba rural, as diferentes danças do samba (com detalhada descrição de passos - corta-jaca, separa-o-visgo, apanha-o-bago, miudinho).
Estabelecidas as regiões e as formas, Nei trata do apogeu do ciclo do café (que atraiu para São Paulo a mão-de-obra do Recôncavo Baiano) e a substituição dessa mão-de-obra pela de imigrantes italianos, japoneses e outros, fazendo migrar para o Rio a comunidade baiana depois conhecida como Pequena África, berço do samba urbano tal como o concebemos.
Surgem, então, as lideranças da Pequena África, com destaque para Tia Ciata, cuja casa era frequentada por Donga, Pixinguinha, João da Baiana, e onde teria sido composto o primeiro samba registrado como tal, ''Pelo Telefone''. Na casa de Tia Ciata, conta Nei, o lugar nobre era do choro, tocado na sala, e o quintal reservava-se ao samba, ao batuque dos mais pobres.
Farto em personagens, ''Sambeabá'' resgata a figura de Mano Elói, que já em 1930 registrou em disco cânticos rituais afro-brasileiros, com seu Conjunto Africano, e Tata Tancredo, que, para financiar a fundação da Confederação Umbandista do Brasil, compôs, em 1950, a marcha General da Banda, sucesso do carnaval na voz de Blecaute.
''O samba urbano nasceu na Praça Onze de Sinhô, ganhou forma no Estácio de Ismael Silva, lapidou-se em torno da Vila Isabel de Noel Rosa e se consolidou em duas vertentes principais: a de Ari Barroso e a de Ataulfo Alves'', resume Nei Lopes, no primeiro parágrafo do capítulo Do Berço à Maioridade. Cada um desses gênios tem a importância cuidadosamente avaliada e o livro segue caminho, fala das escolas de samba de São Paulo, Salvador, Belém, Florianópolis, resume a história das escolas cariocas e acrescenta um índice com mini-retratos dos ''grandes bambas das escolas e blocos cariocas'', sem deixar de lado a crítica ao pagode de butique e às outras músicas industriais surgidas nos anos 90. Uma bela iniciação.


