Sambista vetereno estréia em CD produzido pela CPC-Umes
São Paulo, 16 (AE) - Foi o grande compositor Nei Lopes, homem de todos os sambas e o mais importante estudioso da cultura negra brasileira, quem apresentou Eliseu do Rio para a turma da gravadora CPC-Umes. Eliseu vinha com um disco já pronto
bancado por ele mesmo, em busca de uma gravadora que o distribuísse. Ouvida a fita - só os primeiros acordes já bastaram - a direção da gravadora decidiu que aquele era um disco muito bom: digno, portanto, de ostentar a chancela da CPC-Umes.
O lançamento do CD "Tô Nessa" vai ser antes do carnaval, sem data exata ainda marcada mas, afinal, quem é esse Eliseu do Rio? É um cantor de samba, na linhagem mais nobre, afim de Mestre Marçal e Walter Alfaiate, botafoguense - do bairro de Botafogo, na zona sul do Rio - como esse último. Mas tem uma coisa: é um branco no samba. E pode ser bom? Com a palavra, o padrinho Nei Lopes: "O linguajar carioca, ireverente e demolidor, engendrou, tempos atrás, uma irônica expressão para designar o pretenso sambista, sem ginga, sem ritmo, sem talento - branco no samba".
Não tem, adverte ele, qualquer conotação racial, a tal expressão. E não atinge aqueles homens e mulheres, brancos, índios, japoneses, que integram o mundo do samba (acrescente-se, por exemplo: os padodeiros de butique podem ser chamados, perfeitamente, de brancos no samba). Bom, Eliseu não tem nada a ver com isso. Nasceu em Botafogo, mas logo foi morar na favela da Praia do Pinto, depois na Cruzada São Sebastião; andou pelo Bairro Jabour, reduto de Hermeto Paschoal, baixou em Ramos, terra do Cacique, em Olaria, Irajá e foi parar em Vila Isabel. É figura de proa nos pagodes da Vila, terra de Noel.
Nos anos 70, Eliseu respondeu pela direção de harmonia do bloco Baba de Quiabo, da Cruzada São Sebastião, e participou, como vocalista e cavaquinhista, do grupo Parceiros do Samba. Ficou conhecido, atuou como compositor e músico do Império Serrano, do Salgueiro, da Vila Isabel, da Estácio de Sá. É um homem do samba, experimentado e talentosíssimo. Está chegando só agora ao primeiro disco? Burro que anda o mundo do disco, porque "Tô Nessa" é uma beleza, com direção musical de Carlinhos Sete Cordas e participação de gente do peso de Ovídio, Marcelinho Moreira e Marcelo Pizzot (percussão), Dirceu Leite (flauta), Valtinho (bateria), João Marcos (contrabaixo).
Essa é a companhia de Eliseu do Rio. Para o repertório, ele escolheu gente da nova safra, como Julinho do Cavaco (Jogo Difícil, faixa de abertura), Indaiá Mendes (Brigas e Sinhazinha, Sinhá, esta última uma parceria com Sereno), Moisés Santana (Arena), personagens do já lengendário Fundo de Quintal, como Dedé da Portela (Na Palma da Mão, com Sereno), Sombra (Você Foi, com Sereno e Franco), vizinho de hoje como Vavá da Vila (Cinco Letras). Nei Lopes, o próprio, comparece com "Resistência" e "Coração de Pedra" (ambas em parceria com José Luiz). Esses títulos são para dar água na boca. O disco tem mais. A voz potente, expressiva, cheia de nuances e balanço de Eliseu do Rio transforma cada número do grande, impagável espetáculo - que seja bem-vindo. (M.D.)





