SAMBISTA DA MODERNIDADE
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de dezembro de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O músico, jornalista e teatrólogo Eratóstenes Frazão mirou o corpo franzino. Um jovem esquisito se dizia compositor. Era uma indicação do caricaturista Antônio Nássara.
Você compõe? Então cante uma de suas músicas.
Meu paletó virou estopa/ eu pergunto com que roupa eu vou/ Ao samba que você me convidou...
Frazão entusiasmou-se:
Você tem outras?
Tenho mais 72.
Com que Roupa?, o primeiro sucesso de Noel Rosa, surgiu de um arranca-rabo familiar. A mãe queria evitar que o filho boêmio fosse para a gandaia escondendo-lhe as roupas. Quando os amigos de farra o chamaram, Noel percebeu a artimanha e desembocou a música.
Amigo inseparável das barrigudinhas, meia-garrafa de cerveja que consumia em proporções industriais, Noel Rosa foi o cronista de uma época em que malandros usavam o samba como moeda corrente. O compositor foi um dos principais eixos da transformação que o gênero, ainda incipiente, sofreu ao descer do morro em um primeiro estertor de desenvolvimento e popularidade, embora ainda embrenhando em um ambiente considerado marginal. O Poeta da Vila nasceu em 11 de dezembro de 1910 data que completa 90 anos amanhã.
Como todo cronista, Noel garimpava no corriqueiro sua temática, enriquecida pela facilidade com as palavras. Vários depoimentos narram a velocidade com que um guardanapo de papel se transformava em letra. As palavras, aliás, eram grandes aliadas: Noel aproveitava a acentuação melódica, aproximando canções do bate-papo, da fala cotidiana. É só lembrar, por exemplo, de Conversa de Botequim. A rítmica da fala colaborava também com a síncope do samba.
Sua vida foi um atropelo de bebedeiras, namoros e malandragens afins. Nessa confusão, casou sem planejamento, às pressas. Foi sua santa mãe, Marta de Azevedo, que trocou a cama de solteiro do filho, na casa onde moravam, por uma de casal. Noel nasceu, viveu e morreu no mesmo endereço, em Vila Isabel.
O casamento, aliás, sofreu os reflexos da personalidade instável. Lindaura, a esposa, amargou o desleixo de um marido que topava e tomava todas. Noel furava compromissos, esquecia a mulher no bar, saía com outras namoradas, chegava de manhã em casa. E não escondia o amor por Ceci, uma modelo da Lapa para quem compôs Pra que Mentir e Último Desejo.
União admirável de melodia e letra, Último Desejo quase foi perdida. No leito de morte, Noel ensinou a música a Vadico, que a passou para a partitura. A gravação só saiu em 1938 com Araci de Almeida, após a morte do autor, em versão diferente da que Marília Batista costumava cantar.
Na adolescência, consumida em serenatas, aprimorou o violão. O primeiro disco veio com o Bando dos Tangarás que abrigava também Almirante e João de Barro. Na década de 90 algumas cenas de uma apresentação do Bando foram encontradas por acaso e veiculadas no programa global Fantástico. Com o violão à moda sertaneja o braço do instrumento apontando para o alto , Noel tocava e participava do coro, descalço, com chapéu de palha e calças dobradas até a canela. O repertório do grupo trazia alguns sambas, mas incluía principalmente emboladas, cateretês e toadas.
O aproveitamento da faculdade de Medicina, que abandonou em 1932, se resumiu a Coração, considerado um samba anatômico. Apesar de se tornar um ídolo no rádio, a carreira de Noel Rosa foi alavancada pelas revistas musicais. Foi no meio teatral em que obteve os primeiros indícios de popularidade. Eratóstenes Frazão, que ouviu o compositor entoar Com que Roupa?, incluiu vários sambas de Noel no show Café com Música, deslocando a atração principal o já consagrado Ari Barroso para uma posição secundária.
Também no começo da década de 30, Noel Rosa conheceu uma de suas mais importantes intérpretes, Marília Batista considerada a favorita do compositor. Marília vinculou de tal forma sua carreira à do sambista que se retirou de cena quando ele morreu.
Outra intérprete de peso foi Araci de Almeida, que embutia dramaticidade em sua voz anasalada, cheia de vibratos. Boêmia, Araci de Almeida foi uma das grandes amigas de Noel Rosa.
Com o conjunto Ases do Samba, ao lado de Mário Reis e Lamartine Babo, o compositor alcançou sucesso fora do Rio de Janeiro, excursionando por São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba em 1932.
Um de seus anos mais produtivos foi 1933, quando se envolveu em uma briga com Wilson Batista travada no terreno da composição. Do conflito surgiram Rapaz Folgado, Palpite Infeliz e Feitio de Oração, entre outras. O bate-boca foi encerrado quando Wilson Batista que também era bamba no assunto apelou em Frankenstein da Vila, referindo-se a um defeito físico de Noel, que no parto a fórceps sofreu uma fratura em um osso da face. O problema provocou duas cirurgias e o apelido de Queixinho.
Na vida curta e tempestuosa, Noel compôs de tudo. Falou de amor, de malandragem, fez paródias, músicas de sacanagem, satirizou óperas, questionou convenções sociais, fez revistas radiofônicas e até uma trilha sonora para o filme Cidade Mulher, de Humberto Mauro.
Noel Rosa foi um compositor moderno, atento à sociedade e ao momento que o país vivia com a política de substituição de importações pelo incentivo de uma incipiente indústria nacional, liderada por Getúlio Vargas. A modernidade do autor vem de um samba eminentemente urbano, justamente o oposto da incidência rural do início de carreira.
Como cantor, foi um dos primeiros a escapar do vozeirão empostado, necessário na época das gravações mecânicas do disco de cera, em que a qualidade estava diretamente ligada ao volume do cantor. Na fase elétrica, vozes mais econômicas como a de Noel puderam ser gravadas. Ainda assim, o vozeirão reinou por décadas como padrão.
Além da crítica social, do olhar atento sobre o Rio de Janeiro, Noel Rosa desceu a amada do pedestal onde permanecia intocável nas letras de então para dar-lhe um caráter palpável. Sua paixão não era onírica, mas real.
A boemia de Noel Rosa foi terrivelmente autodestrutiva, tornando-se protagonista de momentos amargos, realçados pelo amor a Ceci. Em 4 de maio de 1937, doente, sentiu-se mal. Quando Araci de Almeida chegou para avisá-lo da gravação de Eu Sei Sofrer, seu último samba, Noel Rosa já estava morto.


