Tudo passa por Jorge Ben. É ele quem, sozinho, parece fundamentar um gênero musical híbrido criado nos anos 60 e que só agora tem sua dignidade estética reconhecida.
O samba rock, como foi rotulado, já é visto como um dos pilares da música popular brasileira contemporânea colocando-se no mesmo plano da bossa nova ou da tropicália. O fato coincide com a redescoberta do estilo pelos músicos e sua popularização em salões de dança - tudo sem qualquer marketing de gravadoras.
Nomes da velha geração voltam a gravar ou têm seus títulos garimpados no baú. Nomes da nova geração prestam homenagens e engrossam o revival. Do que saiu até agora, o principal destaque é o CD ''Samba Rock'', do legendário Trio Mocotó, que retorna ao mercado fonográfico mais de duas décadas depois da separação.
O disco está sendo lançado pelo selo independente YB Music. O grupo surgiu em 1968. Durante anos, acompanhou Jorge Ben (posteriormente rebatizado Benjor) em shows e discos. Nereu (pandeiro), Fritz (cuíca) e João Parahyba (percussão) foram co-responsáveis pela criação do ritmo modificando o samba para encaixá-lo na levada diferente do violão de Ben, que então reinava na fusão do balanço brasileiro com os ritmos americanos.
O novo CD traz 15 faixas reunindo hits de época, regravações e inéditas. O disco foi gravado com instrumentos vintage, do violão Di Giogio 65 ao mini-moog 73, do baixo Fender semiacústico 66 ao órgão Hammond 68. Entre os clássicos recapitulados figuram a sacolejante e hipnótica ''Kriola'' (Hélio Matheus) e uma surpreendente versão instrumental de ''Águas de Março'' (Tom Jobim) executada na (!) cuíca.
Destacam-se ainda, em meio a vibrantes experiências eletroacústicas, a balada soul ''Pensando Nela'' (Beto e Reina) e o suingue aderente de ''Alegria Contida''. Legendário, o trio formou uma legião de admiradores durante o longo período em que esteve longe dos holofotes. Prova disso é a homenagem que o grupo Clube do Balanço presta-lhe em seu CD de estréia, ''Swing & Samba-Rock'', regravando ''Coqueiro Verde''.
A música, de Erasmo e Roberto Carlos, foi a primeira gravação do Trio Mocotó que a lançou num compacto em 1969. A faixa é um dos destaques do disco ao lado da instrumental ''Palladiun'' (Ed Lincoln e Orlandivo) e de ''Aeroporto'' (escolhida como faixa-de-trabalho). O Clube, liderado por Marco Matolli, surgiu há 12 anos na zona leste de São Paulo e virou uma das referências de samba rock na cidade lotando bailões de casais e - desde o ano passado - também as casas noturnas frequentadas por universitários.
Seu CD de estréia tem participações especiais nos vocais de Erasmo Carlos, Max de Castro, Paula Lima, Marku Ribas e Luis Vagner. Assim como o Trio Mocotó, o grupo repaginou ''Kriola'' de Helio Matheus. E se o Trio resgatou ''Adelita'' do repertório de Jorge Ben, a turma de Mattoli preferiu pinçar ''Paz e Arroz''. O disco está chegando às lojas pelo selo Regata, especializado em black music e comandado pelo compositor Bernardo Vilhena.
Nesta temporada, o selo já lançou discos da cantora Paula Lima (do Funk Como Le Gusta), do grupo vocal Classe e dos cantores e compositores Seu Jorge (ex- Faroca Carioca) e Ivo Meirelles (do Funk'n'Lata). O próximo título a pular dos fornos vai marcar o retorno da mítica Banda Black Rio. Na esteira da onda, outros expoentes veteranos do gênero dão alôs ao mercado.
Enquanto o paulista Bebeto prepara um disco ao vivo, o gaúcho Luis Vagner terá dois CDs desovados simultaneamente este mês pela Paradoxx - um de regravações (''Swingante'') e outro de inéditas (''Brasil! Afro Sul, Realista!''). De olho na badalação, as grandes gravadoras começam a se mexer. O grupo paulistano Farufyno é o investimento da Abril Music no gênero. Seu disco de estréia acaba de chegar às prateleiras. Para variar, presta honras aos mestres regravando ''Cadê Tereza'' de Jorge Ben e ''Nega Olivia'' de Bebeto.
Com tanta efervescência, não será surpresa se o samba rock conquistar a gringaiada e influenciar a vanguardinha pop a exemplo da bossa nova e do tropicalismo.

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