Samba perde João Nogueira
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segunda-feira, 05 de junho de 2000
Cristina Grillo e Sergio Torres Agência Folha 
O cantor e compositor João Nogueira, 58, morreu ontem de madrugada, por volta da 1h30, vítima de um infarto fulminante. Seu corpo foi velado em uma das capelas do cemitério São João Batista (em Botafogo, zona sul), onde seria enterrado às 17 horas. Nogueira dormia em sua casa, no Recreio dos Bandeirantes (zona oeste do Rio), quando começou a sentir-se mal. Sua mulher, Ângela, chamou uma ambulância, mas não houve tempo para salvá-lo. O compositor morreu antes de o socorro chegar. Foi tudo muito rápido. Ele vinha bem de saúde, seus médicos estavam confiantes, disse Ângela. O cantor e compositor tinha três filhos.
Há cerca de dois anos, João Nogueira havia sofrido uma isquemia (suspensão ou queda da irrigação do sangue devido a um problema circulatório). Passou algum tempo internado, em estado grave, mas recuperou-se. Na época, havia acabado de lançar o CD João de Todos os Sambas.
No início do ano, sofreu outra isquemia desta vez, de acordo com Ângela, bem mais leve do que a anterior. Por conta dos problemas, Nogueira recebia acompanhamento médico constante. Ele ia sempre ao médico, tomava seus remédios direitinho, fazia dieta. Estava se cuidando, contou Ângela.
João Nogueira vinha ensaiando para dois shows que faria na próxima semana na casa de shows Tom Brasil, na Vila Olímpia, em São Paulo. Nos shows, seria gravado um CD o 19º de uma carreira iniciada no final dos anos 60.
Carioca nascido no Méier, bairro da zona norte, João Nogueira tinha duas grandes paixões: futebol e samba. No futebol, torcia pelo Flamengo. No samba, dividia-se. A primeira paixão foi a escola de samba Portela. Nogueira passou a integrar a ala de compositores da escola em 1972. Desde criança frequentava a escola, levado pelo pai, o violonista Mestre, que tocava com a Velha Guarda da Portela e com músicos ilustres, como Pixinguinha.
Mas, nos anos 80, trocou a escola pela Tradição, fundada por dissidentes da Portela descontentes com o que consideravam um abandono das tradições do samba carioca. Outra paixão foi o Clube do Samba, bloco fundado por ele em 1979 e que inspirou o surgimento de uma série de novos blocos na cidade, como o Simpatia é Quase Amor e o Bloco do Barbas.
Produtor do disco em que Nogueira e o pianista Marinho Boffa interpretam canções de Chico Buarque, Almir Chediak lamentou a morte do amigo. Chediak partilha da opinião do compositor Baden Powell sobre João Nogueira. Baden me disse uma vez que considera João Nogueira o melhor cantor do país, pela sua divisão muito especial, pelo timbre aveludado grave. Era também um grande compositor, disse.


