'S.AMB.A.' DEVASTADOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
As homenagens a Chico Science prosseguem, mas os herdeiros diretos já parecem exorcizar seu fantasma. É o que revela Rádio S.AMB.A., o novo CD da Nação Zumbi, que chega ao público pelo selo independente YBrazil?.
O disco é devastador. Foi lançado simultaneamente no Brasil, Europa e Estados Unidos. É tão ou mais possante que os álbuns anteriores do grupo, fundindo tambores explosivos e guitarra distorcida. É o primeiro trabalho sem Chico, morto num acidente automobilístico há três anos e meio.
É o primeiro trabalho também fora de uma grande gravadora. E o primeiro ainda em que os próprios integrantes assinam a produção. No mês passado, o grupo fez um giro pelo exterior para divulgar o lançamento. Ganhou elogios do New York Times. Radio S.AMB.A leva à frente as propostas que nutriram os manifestos do movimento mangue beat.
O enigmático samba-sigla do título fornece o conceito do disco: Serviço Ambulante da Afrociberdelia, um exercício lúdico que se estende aos créditos do encarte onde os músicos recebem pseudônimos como Pixel 3000 (Jorge Du Peixe), Jackson Bandeira (Lúcio Maia), Djeiki Sandino (Djengue), Amaro Satélito (Gilmar Bolla 8), Fortrex (Pupilo), Tocaia (Toca Ogam) e Mucambo (Gira).
O próprio Chico é citado em uma faixa sob a persona de Dr. Charles Zambohead, que inventara pouco antes de morrer. Vários convidados especiais se espalham ao longo das faixas incluindo Afrika Bambaataa (pioneiro do hip hop norte-americano), Fred 04 (mundo livre S/A), DJs Zé Gonzales e Rodrigo Nutz (do Planet Hemp), Éder (Mestre Ambrósio) e Lia de Itamaracá (a rainha da ciranda em Pernamubuco).
Jeff Parker e Dan Bitney, ambos da banda norte-americana Tortoise, também colaboram na faixa Low-Fi Dream cuja letra mescla português e inglês. É a canção mais longa do CD, com pouco mais de cinco minutos. É na faixa seguinte, porém, que os rapazes parecem divulgar outro de seus manifestos. Mandaram arrancar as tripas do SAMBA repete o refrão nervoso de Arrancando as Tripas.
É um dos destaques do álbum ao lado de Pela Orla dos Velhos Tempos (com co-autoria e vocais de Fred 04), O Carimbó/Côco Assassins (colagem de duas músicas) e das instrumentais Na Balada do Rio Salgado (na qual remetem à Santana) e Del Chifres Beach (com arranjo de metais). Ao contrário dos três CDs anteriores do grupo, todos lançados pela Sony Music, Radio S.AMB.A. dificilmente estará dando sopa nas lojas convencionais.
A distribuição do selo YBrazil? ancora-se na Internet (www.alternetmusic.com.br) e em lojas especializadas. A seguir, leia trechos da entrevista que o vocalista e compositor Jorge Du Peixe concedeu, por telefone, à Folha2.
A Nação Zumbi fez um caminho inverso a maioria das bandas e artistas: começou numa grande gravadora para depois lançar um disco independente. Como você avalia essa mudança?
Antes de terminar o contrato com a Sony, que acabaria com o lançamento do álbum CSNZ, a gente já pensava em ter um controle maior de nosso trabalho. Gravar por um selo independente seria lógico. Por isso, não tivemos problemas durante essa transição, principalmente porque o YBrazil? dispõe de um estúdio próprio, o que permitiu um tempo mais longo de gravação. Com essa vantagem, pudemos trabalhar melhor a sonoridade das músicas.
Além do limite de tempo na utilização de estúdio, houve alguma interferência da Sony nos discos anteriores?
Houve só aquele episódio da gravadora incluir, sem nossa autorização, um remix de Maracatu Atônico no CSNZ. A gente não gostou daquilo porque a escolha do produtor da faixa não partiu da gente. Fora isso, não houve nenhuma outra interferência da gravadora, mesmo porque deixamos claro isso desde o início.
O novo disco é o primeiro produzido por vocês. Como foi essa experiência?
Cogitamos algumas pessoas para a produção, mas todas estavam ocupadas com outros trabalhos. Aí decidimos encarar a parada. Foi tranquilo. A sonoridade do disco é exatamente aquela que a gente queria conseguir.
Houve alguma mudança de abordagem sonora em relação aos outros discos do grupo?
Cada disco traz uma sonoridade peculiar da época em que foi gravado. O Da Lama ao Caos foi gravado sem muitos recursos de produção. O Afrociberdelia já contava com samples e tal. Neste novo disco, trabalhamos muito em cima dos tambores, que têm um som difícil de tirar. Desta vez, pudemos brincar mais com os timbres, por isso eles soam diferentes em cada música. Nos outros discos, o som era mais linear em todas as faixas.
Por que vocês adotaram pseudônimos nos créditos das músicas?
O conceito do disco é que somos agentes do Serviço Ambulante da Afrociberdelia (S.AMB.A). Somos zeladores desse condomínio.
Como vocês conheceram o pessoal do Tortoise, que participam da faixa Lo-Fi Dream?
O Jeff Parker e o Dan Bitney apareceram por acaso no estúdio em que estávamos gravando e o Lúcio (o guitarrista da Nação Zumbi) fez o convite para uma participação especial. Os caras toparam na hora.
Vocês andaram excursionando pelo exterior nos dois últimos meses. Como foram esses shows?
No mês passado tocamos no Celebration Chico Science, um evento em homenagem a Chico Science que seria realizado durante o dia no Central Park em Nova York. Só que caiu uma chuva, e o show transferido para a noite no Sobs. Depois fomos para Londres, onde participamos de um festival de música brasileira dividindo o palco com Bebel Gilberto e Mestre Ambrósio. Em seguida, fizemos uma apresentação no Mangue Tejo Beat, um festival em Portugal que reuniu três artistas locais e três do Brasil. Daqui, fomos nós, o Otto e o Mundo Livre S/A.
Como está a cena musical de Pernambuco? O movimento que vocês desencadearam continua vivo?
Tem muitas bandas nascendo. A cada cinco que surge, pelo menos duas são legais. É claro que muitas ainda trazem influências, mas com o tempo vão aprimorando o som. E há os festivais. O Pernambuco é o único Estado que tem quatro festivais rolando. A cena está cada vez mais forte.


