Aluísio Machado: “Eu sou do tempo em que parceria era de dois, no máximo três compositores. Agora é de dez no mínimo. Isso para mim é formação de quadrilha”
Aluísio Machado: “Eu sou do tempo em que parceria era de dois, no máximo três compositores. Agora é de dez no mínimo. Isso para mim é formação de quadrilha” | Foto: Divulgação

"Bum bum paticumbum prugurundum." O autor do samba-enredo que fez a Império Serrano campeã do carnaval carioca de 1982 é o convidado do Samba da Madrugada deste sábado (20). Com 80 anos recém-completados, Aluísio Machado desembarca em Londrina esbanjando energia e com muito samba no pé.

Em entrevista à FOLHA por telefone, já avisou: “Não gosto de rodinha de samba que todo mundo fica em cima, eu gosto de espaço. Eu não canto parado, não canto estático. Tem uns amigos meus que são bons compositores, mas são estáticos, eu não. Quando eu canto meu corpo canta junto comigo”. E o povo aplaude.

Questionado sobre quais sambas de enredo considera mais bonitos da história, ele dispara sem falsa modéstia: “O filho da gente sempre é bonito”. Aluísio poderia listar uma série de sambas compostos pelo mestre Silas de Oliveira, imperiano como ele e considerado o maior do gênero. Mas é que esse fluminense de Campos dos Goytacazes radicado no Rio desde menino também é craque no ofício.

Sem favor, é um dos maiores compositores vivos do carnaval carioca. “Tenho 12 sambas-enredo no Império Serrano, sendo 6 Estandartes de Ouro. Todos que eu fiz acho legal, mas o que pegou mesmo foi o Bumbum...”, comenta sobre a composição em parceria com Beto Sem Braço.

O sambista tem outras obras-primas em forma de samba de enredo no currículo, como “Eu quero”, de 1986 (“Me dá, me dá/ me dá o que é meu/ foram 20 anos que alguém comeu”) e “Verás que um filho teu não foge à luta” (1996), em homenagem à cruzada do sociólogo Betinho contra a miséria e a fome (“Amasse o que é ruim/ e a massa enfim/ vai se libertar/ Sirva um prato cheio de amor/ pro Brasil se alimentar”).

Autodidata, não toca instrumento musical e não sabe explicar seu talento. “Vem a ideia, eu vou faço a melodia e a coisa acontece. Acho que é até meio espiritual”, diz ele que compôs pela primeira vez ainda adolescente.

E como deve ser um bom samba-enredo? “Tem de ter melodia e letra. Em 82, quando ganhei com 'Bumbum-paticumbum...', ninguém acreditava. Porque era difícil, comprido, mas antes de entrar na Sapucaí o povão já estava cantando o samba.”

O talento é nato e fato. Já o reconhecimento... Aluísio Machado se ressente de não ter o valor de sua obra ratificado. “Não me sinto reconhecido. Se eu estivesse nos Estados Unidos estaria com dinheiro. Não sei o que tocou em Londrina no carnaval. Posso provar? Não posso. Então, o tal do Ecad rouba a gente, principalmente sambista”, ataca.

Versos que incomodaram os militares

Aluísio Machado brinca com a idade: “Agora tô fazendo parceria com o Alzheimer”. Mas segue lúcido como nunca. “Eu tô com medo desse moço”, diz ele se referindo ao presidente Jair Bolsonaro. “Vivi a ditadura, fui parar na Polícia do Exército.”

Questionado sobre o que irritava os militares em suas letras, lembrou de “Efeitos da Evolução”, imortalizada por Martinho da Vila. “Se o Cristo aqui voltar, com a intenção de nos salvar, será preso, algemado, e nem vai poder falar”, diz um dos versos da música.

A crítica é uma característica do compositor, não só à política. A própria Bum bum paticumbum prugurundum foi uma forma de Aluísio questionar o carnaval, que se tornava mais luxuoso e deixava em segundo plano as comunidades das escolas. “Super escolas de samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia”, diz um dos versos. Ele conta que seu alvo principal era Joãozinho Trinta, carnavalesco já falecido da Beija Flor.

Se o carnaval dos anos 80 já causava revolta no compositor, imagine o de hoje. Aluísio Machado ataca a mudança no processo de criação dos sambas ao longo das décadas, com financiamento de parcerias e uma infinidade de autores. “Eu sou do tempo em que parceria era de dois, no máximo três compositores. Agora é de dez no mínimo. Isso para mim é formação de quadrilha.”

Completando cinco anos, o Samba da Madrugada tem edições bimestrais e é produzido pelo carioca Michael Silva Soares. Em edições intercaladas, são convidados nomes importantes do samba, que cantam acompanhados pelos músicos londrinenses. Entre eles, já estiveram no evento Nelson Sargento e Monarco, baluartes das escolas Mangueira e Portela, respectivamente.

SERVIÇO

Samba da Madrugada com Aluísio Machado

Onde: Local: Rua Paraíba 574

Data: 20 (sábado)

Horário: a partir das 21 horas

Ingressos antecipados pelo portal do Sympla – www. sympla.com.br - a R$ 20

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