SAMBA COM QUALIDADE
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
O canto dolente e o porte nobre de grande senhor do samba já podem ser novamente exaltados em Martinho da Vila. Tais predicados, convenhamos, foram arranhados depois daquela história de ele cantar o sambinha Mulheres, responsável pela astronômica vendagem de mais de um milhão de cópias do disco Tá Delícia, Tá Gostoso (95). A volta por cima pode ser conferida em O Pai da Alegria (Sony), 31º disco de Martinho da Vila com o qual comemora oficialmente seus 30 anos de mercado fonográfico.
Datas redondas à parte, o bacana mesmo é vislumbrar a possibilidade de uma ou outra música de Pai da Alegria ser escolhida para tocar nas rádios e, consequentemente, deixar claro o que é samba feito por bamba e sambinha cantado por mauricinhos travestidos de pagodeiros. Claro, os Djs hão de pegar as mais apelativas. E é quase certo que vão se desbundar com a participação do grupo Katinguelê na faixa Amor pra Valer (Salgadinho-Papacaça-Mito). Que seja!! Mesmo com a bela jogada de marketing produzida pelo encontro, a canção tem força apesar de versos meia boca.
Agora, se é para falar em pagode de verdade é bom uns e outros colocarem bem os ouvidos na faixa-título, composta por Martinho da Vila e Agrião. É um partido-alto de primeira com direito à cadência marcada na palma da mão. Outras duas faixas deliciosas são Assédio (Martinho da Vila-Zé Katimba) e Pro Amor Render (Dudu Nobre-Roque Ferreira).
Um pequeno deslize acontece em Pai da Alegria. É a romantiquinha Luz do Meu Luar (Maria da Paz-Papacaça), sedimentada no teclado e corinho com alguns versos encharcados de lugar-comum. Dá só um manjo num trecho da letra: Teu beijo me embriaga, mexe com o meu ser/Se espalha no meu corpo a endoidecer/ Meu coração/ Felicidade é ter esse sorriso teu/ Nas vinte e quatro horas deste mundo meu. Ai, ai...
Por via das dúvidas, Pai da Alegria é um disco gravado com instrumentos acústicos como convém a puristas do samba. Só que Martinho, nessas últimas andanças fonográficas, descobriu que os teclados podem ser úteis. E os usa, às vezes com parcimônia outras nem tanto. No geral, passa batido; não causa comprometimentos maiores.
E é amparado em uma boa cozinha instrumental em que não podem faltar o violão, cavaco, pandeiro, surdo, tamborim que Martinho da Vila vai buscar preciosidades. E a relíquia da vez é o maxixe Gavião Calçudo (Pixinguinha) que Martinho, com seu jeitão malemolente de cantar, recria com categoria.
Há também um pot-pourri com três músicas de Noel Rosa as conhecidas Feitio de Oração (feita em parceria com Vadico), Para Me Livrar do Mal (composta com Francisco Alves-Ismael Silva) e Estrela da Manhã (raríssima composição feita com Ary Barroso). Pai da Alegria é feito para todos os ouvidos e gostos. Um raro hoje em dia, pelo menos disco de samba em que o apelo comercial não vem em primeiro lugar.





