Samba "atravessa" na visita dos bailarinos do Bolshoi a Mangueira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de maio de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 04 (AE) - Valeu a intenção, mas o samba da Mangueira não contagiou os bailarinos do Bolshoi que foram até a quadra da escola, na segunda-feira. Estava tudo lá. A simpatia do primeiro-bailarino Nicolai Tsiskaridze, a beleza das bailarinas Annia e Sônia, do corpo de baile, a alegria e o charme dos rapazes do coro e a boa vontade de Carlinhos de Jesus para ensinar samba no pé a quem entende muito de pontas e pliés. Mas o samba não ajudou. Em vez da bateria da escola, quem tocou foram as crianças da Mangueira do Amanhã, algumas menores que os instrumentos. E o samba atravessou.
Os bailarinos bem que se esforçaram, mas não conseguiam esconder o cansaço. Afinal, eles tinham chegado de Moscou às 5 da manhã de ontem, depois de viajar mais de 20 horas, com uma escala na Alemanha. De tarde, tiveram três horas e meia de aula, para conhecer melhor o Teatro Municipal do Rio, onde se apresentam de amanhã (05) a domingo. Depois de almoçar às 17 horas, eles foram para a Mangueira, que fica na zona norte da cidade, enfrentando o engarrafamento da hora do rush. Quando chegaram, encontraram a quadra praticamente vazia, só com algumas crianças da Mangueira do Amanhã preparadas para uma exibição.
Mesmo assim, Tsiskaridze ensaiou alguns passos com uma das porta-bandeiras mirins, seguindo as instruções de Carlinhos de Jesus, embora o bailarino só fale russo, língua que o professor de dança de salão não domina. Tsiskaridze contou depois que já havia experimentado os passos do samba. "Na escola de balé onde estudei, houve uma prova em que precisávamos improvisar danças de vários países", lembrou ele. "A mim coube o samba e eu me inspirei em Carmem Miranda".
O bailarino contou também que, na Rússia, ao contrário do Brasil, há diversas etnias e cada uma delas tem suas danças e músicas. "E as escolas ensinam-nos a dançar e cantar, porque faz parte da nossa cultura", disse ele. "No meu caso, aprendi sobre o folclore da Geórgia, uma região completamente diferente da Rússia, mas que fez parte da União Soviética e continua ligada a Moscou".
Tsiskaridze dança desde os 10 anos (ele tem 25 anos) e não vem de uma família de bailarinos, o que é pouco comum no Bolshoi. Seu diretor artístico, por exemplo, Alexei Fadeetch, é filho de Nicolai, que foi parceiro de Maia Plissetskaia. Ele também já foi primeiro-bailarino, considerado um dos melhores da companhia. E o irmão dele, Igor, faz parte do corpo de baile do Bolshoi. Os dois irmãos estiveram na Mangueira, mas não dançaram. Alexei contou que hoje só dirige o balé e nem gosta mais de dançar, embora tenha imitado jocosamente os passistas da Mangueira. Passistas russas - Já as bailarinas foram alunas aplicadas de Carlinhos de Jesus. Elas chegaram bem depois dos diretores da companhia e do primeiro-bailarino porque ficaram retidas no engarrafamento. Mas não se fizeram de rogadas e começaram logo ensaiando seus passos. Annia Ivanova impressionava pela beleza, enquanto Sonia mostrou mais ginga que ela. Mas a primeira-bailarina, Yuliana Malckassiants, preferiu não arricar no samba.
Hoje foi dia de folga para os bailarinos do Bolshoi, mas só até as 19 horas, quando eles tinham ensaio geral de Spartacus
a coreografia vai estrear amanhã (05) no Teatro Municipal do Rio. Até domingo, eles dançam ainda Raymonda e um programa de peças variadas. Na semana que vem, o grupo estará no Municipal de São Paulo repetindo a dose e, depois, apresentam-se em Recife
Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Joinville e Curitiba.
A companhia veio com 140 pessoas, (das quais 110 são bailarinos), muitos deles em sua segunda viagem ao Brasil. Mas quando foi falar da expectativa quanto a esta turnê, o diretor artístico Alexei Fadeetch preferiu o lugar-comum: "Estamos aqui para mostrar nossa arte e, por isso, escolhemos o melhor de nosso repertório".


