São Paulo, 12 (AE) - Não existem heróis no cinema de Sam Fuller, apenas sobreviventes. Nada mais de acordo com o projeto do autor que comparava o cinema a um campo de batalha. Definido como o mais anarquista dos grandes diretores de Hollywood, Fuller virou objeto de um culto, especialmente na França, onde Jean-Luc Godard chegou a colocá-lo em "O Demônio das Onze Horas" (Pierrot le Fou), para que ele desse sua célebre definição sobre o cinema. Wim Wenders é outro oficiante do culto: colocou Wenders no elenco de "O Amigo Americano". A adoração não pára por aí: Mika Karismaki fez "Tigrero", sobre o filme que Fuller queria rodar no Brasil. E Jim Jarmusch divide a cena com Fuller em "Tigrero", ouvindo dele a história do filme que nunca foi feito.
Se você é cinéfilo e assinante da TV paga (Net/Sky) é uma pessoa de sorte. Começa amanhã no Telecine 5 uma semana inteira de filmes dedicada ao grande cineasta. Eles serão exibidos sempre às 22 horas. A programação começa com "Anjo do Mal" e prossegue mostrando "Baionetas Caladas", "A Dama de Preto", "Tormenta sob os Mares", "Dragões da Violência", "O Cão Branco" e "Tigrero, o Filme Que nunca Foi Feito". Todos são bons, alguns muito bons, mas os melhores do programa são mesmo "Anjo do Mal" e "A Dama de Preto". Chamam-se, no original, "Pickup on South Street" e "Park Row".
O primeiro sempre foi aclamado como uma das obras maiores de Fuller, com "A Lei dos Marginais", "Paixões Que Alucinam" e "Agonia e Glória". O segundo, considerado um fracasso na época do lançamento, é daquelas obras que saem valorizadas com a revisão. Grande Fuller. Ninguém, como ele, lutou para fazer obra pessoal em Hollywood, mesmo na época em que militava na produção B. Em seus filmes, mesmo nos mais aparentemente convencionais, há sempre um elemento desestabilizador. Isso levou a revista "Cahiers du Cinéma", a primeira a incensá-lo, ainda nos anos 50, a proclamar que era o cineasta mais talentoso da confusão geral.
Fuller sempre desprezou a lógica dos cartesianos. A única lógica de seus filmes é mostrar que o mundo não tem lógica. Surgem daí os paradoxos que pontuam sua obra: "O Chefe Búfalo Azul" (ex-Renegando o Meu Sangue, com Sarita Montiel!) é um faroeste antimilitarista, mas o diretor tem um prazer tão perverso em documentar a crueldade dos índios que o filme foi rotulado de antipele-vermelha. E há o caso de "Paixões Que Alucinam", que se passa num instituto psiquiátrico e no qual um negro louco se toma por integrante da Ku Klux Klan.
"Anjo do Mal" foi feito numa época de anticomunismo ferrenho em Hollywood, mas o filme, que conta a história de um trapaceiro que se apodera, inadvertidamente, de documentos secretos, subverte a própria retórica antivermelha ao irmanar no mesmo desprezo o agente americano e o russo e ao exaltar a dignidade das figuras que representam a escória do capitalismo (batedores de carteira, prostitutas e delatores). Apesar da presença sempre sólida de Richard Widmark, você não vai esquecer Thelma Ritter, uma das maiores coadjuvantes da história do cinema americano, como a mulher das ruas que vende informações.
"A Dama de Preto" é o que se chama de period piece, um filme desenrolado no fim do século passado, em Nova York, sobre jornalista que rala para criar o próprio jornal e tem de enfrentar a concorrência pesada de uma magnata da imprensa. É um filme pequeno, mas duro. E o que dizer de "Dragões da Violência?" É um western com Barbara Stanwyck no papel de uma dominadora proprietária de terras em Tombstone. Seu império fica ameaçado quando entra em cena um US Marshall. Na melhor tradição de Hollywood, a terra treme quando ela se envolve com o delegado. Todos filmes fortes, bem como Fuller gostava. Serviço - Semana Samuel Fuller. No Telecine 5 (Net/Sky). Amanhã (13), às 22 horas: "Anjo do Mal" (Pickup on South Street). EUA
1953. Direção e roteiro de Fuller, com Richard Widmark, Jean Peters, Thelma Ritter, Richard Kiley e Marvin Vye. Preto-e-branco, 80 min.

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