São Paulo, 1 (AE) - Pietro Maria Bardi nasceu com o século 20 e por pouco não viu seu fim. Ele completou 99 anos no dia 20 de fevereiro. Tamanha longevidade é atribuída a uma vida extremamente saudável e dedicada durante décadas exclusivamente a seu grande legado, o Museu de Arte de São Paulo (Masp). Afastado da direção do museu há 9 anos, Bardi continuou ocupando a presidência de honra da instituição, mas ultimamente estava com a saúde abalada e não saía mais de casa.
Situação pouco confortável para um homem que foi internado pela primeira vez na vida com apenas 90 anos e que pouco tempo antes costumava subir tranquilamente a ladeira que levava à sede do museu da Avenida Paulista, construído por sua mulher, Lina Bo Bardi. Apesar de orgulhar-se de sua saúde de ferro - não bebia, não fumava, detestava eventos sociais e costuma dormir às 21 horas para acordar sempre às 4 horas -, Bardi não temia a morte. "Envelhecer não me preocupa", disse ele certa vez, acrescentando: "Espero a morte como uma coisa absolutamente comum." E acrescentava: "Foi divertido viver, deixei correr à minha maneira, salvo naturais explosões."
A vida de Bardi não foi apenas longa, mas profundamente agitada. Filho de comerciantes, ele nasceu na pequena cidade italiana de La Spezia e dizia ter tido uma infância infeliz, sem amigos ou brincadeiras de rua. Detestava a escola e, após repetir três vezes o terceiro ano elementar, acabou abandonando-a. Trabalhou como office-boy, operário e foi soldado durante a Primeira Guerra Mundial, apesar de não ter precisado ir para a linha de frente. Depois tornou-se jornalista, galerista e crítico de arte.
"Um dia caí, bati a cabeça no muro e fiquei inteligente", brincava. Na realidade, Bardi orgulhava-se de ser o mais perfeito dos autodidatas. Estudou sozinho na biblioteca jurídica de um amigo de seu pai, com quem trabalhou como contínuo. Publicou seu primeiro livro, um ensaio sobre as possessões coloniais, aos 17 anos. Ao todo escreveu mais de 50 livros durante toda a vida.
Bardi também pintava, mas jamais gostou de mostrar sua produção. Uma de suas obras, no entanto, faz parte do mural de vitrais do hall da Faap, ao lado de um trabalho de Tarsila do Amaral. Quando desembarcou no Brasil em 1946 acompanhado de sua segunda mulher, Lina - seu primeiro casamento, que gerou duas filhas, foi anulado -, ele já era uma figura de destaque no cenário artístico italiano. Ele inaugurou sua primeira galeria em 1925, mas quatro anos depois foi convidado a dirigir um órgão oficial do governo fascista, a Galleria di Roma. Bardi era um grande admirador de Benito Mussolini, com quem tinha relações bastante próximas. Mas ousou questionar a estética fascista e desafiou o regime ao convidar judeus para escrever nos jornais e revistas em que trabalhava, até que acabou sendo expulso do partido. Julgava que o grande erro do Duce havia sido a aproximação com Hitler.
Consta que esse ímpeto audacioso, associado a sua formação intelectual, foi o que convenceu Assis Chateaubriand a convidá-lo a participar da empreitada de montar um grande museu de arte antiga e contemporânea no Terceiro Mundo. Além do espírito arrojado de Chateaubriand, que conseguia financiar as aquisições de obras extorquindo a elite local, e da capacidade de Bardi de localizar grandes tesouros da arte mundial, o projeto do Masp teve outro aliado importante: o quadro econômico do pós-guerra, que levava as pessoas a vender obras-primas por preços inacreditáveis.
O Escolar, de Van Gogh, por exemplo, foi adquirido por apenas US$ 35 mil. Com poucos milhões de dólares, eles conseguiram que o Masp passasse a ter tesouros como quatro telas de Van Gogh, 13 quadros de Renoir, 73 esculturas de Degas e até um Rafael. A compra dessa tela é uma das histórias mais interessantes dessa caça ao acervo do Masp. Bardi contava que estava no hotel em Nova York quando Chateaubriand o chamou: "Acorda, Duce! Que tal comprarmos um Rafael?" Ao que ele respondeu: "Não se compra um Rafael no dia de Páscoa, dr. Assis." Ele estava errado. Um importante galerista soube que o dono dos Diários Associados estava pela cidade e resolveu lhe oferecer a tela, que tinha um grande inconveniente. Apesar de atribuída ao mestre renascentista, não havia nenhum documento que comprovasse tal autoria. Após uma hora inspecionando o quadro, Bardi declarou tratar-se de um verdadeiro Rafael. O problema foi que na época nem todos concordaram. Anos depois, ele encontrou esboços das figuras retratadas no Museu Britânico, provando definitivamente autenticidade da obra, A Ressurreição de Cristo.
Essa e outras histórias renderam uma grande polêmica em torno ao trabalho de Bardi e muitos disseram que ele estava montando um museu de quadros falsos. Chegou a correr a piada de que o próprio Bardi era falso, pois o verdadeiro tinha ficado na Itália.
Esses boatos o irritavam profundamente. Certa vez chegou a esmurrar um jornalista grosseiro que, durante uma palestra de Flávio de Carvalho, em 1948, insultou-o dizendo: "Não gostamos de gente que veio a nosso País nos porões de terceira classe." Para dirimir essas idéias ele chegou a organizar uma grande exposição de obras do acervo do Masp no museu Orangerie, em Paris, e mexeu tanto os pauzinhos que conseguiu com que o presidente Vincent Auriol comparecesse acompanhado da primeira-dama na festa de inauguração.
Sua fama de briguento foi reforçada em 1982, quando ele decidiu protestar contra as pichações políticas na fachada do Masp e escreveu a palavra merda em letras garrafais sobre a propaganda que poluía o local. Foi preso e só não foi condenado porque tinha mais de 70 anos e era considerado inimputável. Como bom provocador, ele disse ter pensado na ocasião: "Que bom: posso continuar escrevendo merda."
Bardi também era profundamente autoritário e controlava o Masp com mão de ferro. Costumava inspecionar até a limpeza dos banheiros ou varrer a sala de exposições antes do início do vernissage. Outra polêmica forte em torno do trabalho de Chateaubriand é fato de ele ter continuado a exercer as funções de galerista e o hobby de colecionador, paralelamente às funções que exercia no museu. Ele sempre rebateu essas críticas afirmando jamais ter recebido um tostão pelos mais de 40 anos de dedicação ao museu. Ao contrário, chegou a vender peças de sua coleção particular para ajudar a instituição, que perdeu o vigor e a capacidade de continuar se expandindo com a morte de Chateaubriand, em 1968. Bardi deixou todos os bens acumulados por ele e pela mulher para duas fundações, os institutos Quadrante e Lina Bo e Pietro M. Bardi.
Ninguém sabe ao certo o que o fez trocar a Europa pelos trópicos, mas o clima político certamente contribuiu para isso. Bardi afirmou reiteradas vezes o incômodo que sentiu ao ver o oportunismo generalizado, os fascistas que se convertiam rapidamente ao comunismo para se dar bem no final da guerra. O que era apenas uma visita sem maiores compromissos acabou tornando-se um projeto de vida, formalizado até mesmo pela opção pela cidadania brasileira.
Ele já havia conhecido o Brasil em 1934 e na ocasião havia preferido o Rio de Janeiro à ainda interiorana São Paulo. Mas Chateaubriand determinou que o novo museu deveria se instalar onde estava o dinheiro. Ao museu, inaugurado em 1947, foi destinado um andar do prédio dos Diários Associados, construído na Rua 7 de Abril. Quando o Masp foi transferido para o atual prédio da Paulista, em 1968, já ocupava quatro andares. Para inaugurar a nova sede com toda a pompa, Chateaubriand conseguiu trazer ao Brasil a rainha da Inglaterra. Além de ter constituído o mais importante acervo de artes da América Latina, algo impensável de ser reconstituído nos dias de hoje, Bardi também tinha a intenção de cunhar um modelo vivo de museologia, que rompesse com a tradição oitocentista seguida pelas duas únicas instituições do gênero na cidade: o Museu Paulista (mais conhecido como Ipiranga) e a Pinacoteca do Estado.
Seu museu, como gostava de chamar o Masp, abrigou cursos
palestras e eventos culturais dos mais distintos. Nos anos 50, foi Bardi quem ousou criar as primeiras escolas de design e de publicidade do País. Este último transformou-se na Escola Superior de Propaganda e Marketing. Preocupado em criar coisas novas, Bardi era um ardoroso defensor da arquitetura moderna e crítico virulento da Bienal de São Paulo. Segundo ele, o evento copiou sem tirar nem pôr o modelo da Bienal de Veneza, cunhado no século 19.

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