O primeiro museu do candomblé do país, o Ilê Ohun Lailai (casa das coisas antigas, em iorubá), que ficou fechado durante três anos para restauração, foi reaberto em Salvador. Seu acervo contém roupas e adereços de mães-de-santo e orixás, fotografias históricas e utensílios do ritual de candomblé, como navalhas, agogôs e atabaques.
Mas isso é apenas parte do museu, que conta com 400 peças utilizadas durante toda a história do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1909 e tombado como patrimônio cultural nacional pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), no ano passado.
Criado em 1982, o local abriga um dos poucos acervos remanescentes da história do candomblé no mundo. Na África, berço da religião, parte da história do culto aos orixás foi perdida durante o domínio britânico na Nigéria, país-sede da nação iorubá.
‘‘A perseguição à religião na África, durante o domínio inglês, foi muito mais cruel e violenta que no Brasil. Isso fez com que pouca coisa restasse’’, conta Vera Felicidade de Almeida, 57, organizadora do acervo.
‘‘O fato de sermos um dos poucos remanescentes dos negros iorubás daqui e da África muito nos envaidece, mas nos entristece também, porque ficamos ilhados como um dos únicos centros de pesquisa da religião no país’’, afirma Mãe Stella, 75, mãe-de-santo do Opô Afonjá.
Entre as peças expostas está o manifesto contra o sincretismo, assinado em 1983 pelas principais ialorixás da Bahia: Maria Escolástica Nazareth, a Mãe Menininha do Gantois (morta em 86), Olga de Alaketu, Nicinha do Bogum e Stella de Oxóssi.
‘‘Todo o esforço é por querer devolver ao culto dos orixás a dignidade perdida durante a escravidão e os processos decorrentes dela: alienação cultural, social e econômica, que deram margem ao folclore, ao consumo e à profanação de nossa religião’’, escrevem no documento.
Como forma de os negros preservarem o candomblé durante períodos de perseguição, foi originada, há mais de quatro séculos, a prática do sincretismo.
Camuflavam, assim, a crença nos orixás em imagens de santos católicos. Desse modo, santa Bárbara, protetora contra raios e trovões, é Iansã, justamente a orixá dos raios e trovões, por exemplo.
Embora reafirme o teor do manifesto, Stella de Oxóssi admite, 17 anos depois, que a tarefa não é simples. ‘‘Até os adeptos ainda não se conscientizaram do valor que o candomblé tem como religião e mantêm os pés atados nos grilhões da escravidão. Vai demorar para haver essa separação.’’ Desse modo, não foram deixadas de lado, no próprio museu do candomblé, imagens de santos ao lado das dos orixás. ‘‘O sincretismo, queira ou não, faz parte da memória da religião no país’’, diz.
O museu Ilê Ohun Lailai fica aberto de segunda a sexta, das 8h às 13h e das 14h às 18h, no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A entrada para o museu custa R$ 1.Mais informações pelo telefone (71) 384-5229.

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